‘O desemprego de jovens na Europa é uma bomba-relógio’

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Noreena Hertz, economista e professora da University College London, lança o livro ‘De Olhos bem Abertos: como tomar decisões inteligentes em um mundo confuso’ Terceiro / Divulgação

por Lucianne Carneiro / O GLOBO

Professora da University College London (UCL) e economista reconhecida pela busca de um capitalismo mais ético, a inglesa Noreena Hertz, de 46 anos, afirma que o desemprego juvenil na Europa é uma bomba-relógio. Para Noreena, que já foi capa de revistas como “Newsweek” e é nome frequente entre os palestrantes do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, a permanência por muitos anos fora do mercado de trabalho compromete o futuro desses jovens e, mais do que isso, é um problema para a sociedade civil, já que acaba levando as pessoas às ruas.

A despeito disso, ela comemora o fato de que enfim os governos europeus começam a pensar o crescimento como parte de suas estratégias pós-crise, após a onda de austeridade. Noreena lança este mês no Brasil o livro “De olhos bem abertos: como tomar decisões inteligentes em um mundo confuso” (selo Fontanar, pela editora Objetiva). Num mundo com um “dilúvio de informações’, diz ela, é preciso ser muito cuidadoso com o que se encontra na internet e sugere um questionamento constante dos chamados especialistas, que podem muitas vezes se enganar, como ocorreu na crise financeira.

Logo depois da crise global houve um debate sobre o aspecto moral daquele momento e a necessidade de mudança. Acredita que algo mudou na sociedade?

Acho que há um cenário dúbio. Por um lado, o setor bancário foi menos afetado por regulação do que se esperaria. Ao mesmo tempo, acreditava-se que após a crise o mundo poderia tornar-se mais igual e no fundo ficou mais desigual. Os mais ricos se deram melhor no momento pós-crise. Ao mesmo tempo, no entanto, vemos algum avanço. Nos Estados Unidos, a campanha à prefeitura de Nova York de Bill de Blasio debateu muito a desigualdade, tema também forte nos discursos de Obama. Além disso, cada vez mais presidentes de empresas avaliam que não é do interesse deles ter um mundo muito dividido. E percebem que têm um papel na resolução dos problemas, como no caso do desemprego juvenil.

Como vê o desemprego juvenil na Europa?

A situação é muito séria. Países como Itália, Grécia e Espanha têm mais de 50% da população abaixo de 25 anos desempregada. É uma bomba-relógio. Quando alguém não tem emprego por alguns anos, suas chances na vida são comprometidas. Isso afeta a sociedade civil, porque se pode esperar aumento nas manifestações. Não é um problema apenas para esses países: a Europa ainda está muito fragilizada economicamente.

Como encara o declínio do Estado de bem-estar social na Europa?

Como consequência da crise, temos o Fundo Monetário Internacional (FMI) demandando austeridade, corte de gastos e do déficit, o que afeta o quanto os governos podem gastar em bem-estar. Há muitos países menos desejosos ou capazes de financiar educação e saúde, por exemplo. A austeridade tem um impacto grande nas pessoas e na economia. Ela essencialmente reduz a capacidade de as pessoas consumirem num momento em que precisamos que elas consumam mais, para estimular o crescimento.

Qual seria a alternativa?

A Europa deveria ter focado mais em crescimento. Há necessidade de um investimento maciço em infraestrutura em muitos países europeus, o que aumentaria a competitividade no futuro e traria empregos. Agora estão começando a pensar nisso, finalmente entrou no discurso político a percepção de que precisamos focar no crescimento e pensar o que pode ser feito.

Como analisa a situação da economia americana?

É muito cedo para ser otimista demais sobre uma recuperação. O mundo hoje é tão interconectado que qualquer choque pode afetar a fase inicial de recuperação em que estamos. É preciso cautela.

O desafio é descobrir no que confiar e em quem acreditar

A senhora já foi chamada de economista antiglobalização muitas vezes, mas nega o rótulo. Como se define?

Sempre fui muito internacionalista, acredito que as pessoas não deveriam ser limitadas pelo local em que nasceram. Numa economia global, é preciso governança global, de acordos globais para lidar com os problemas. Sempre me vi como uma pessoa “pró-global”, a favor de uma globalização mais ética e justa. É uma aspiração pragmática: todos nos saímos melhor se todos se saírem melhor.

No livro a senhora menciona as limitações dos especialistas e cita o fato de não terem previsto a crise. Qual é a importância de se questionar os especialistas?

Na verdade, especialistas têm uma média baixa de acertos em geral em previsões e diagnósticos. A maioria dos economistas não previu a crise financeira. Pouco antes, Alan Greenspan falou sobre a segurança dos derivativos. Agências de rating falharam completamente. E não se trata apenas de economistas: médicos fazem um diagnóstico errado a cada cinco. É preciso ter muito cuidado para não acreditar cegamente nos especialistas e saber em quem acreditar.

A senhora fala do atual “dilúvio de informações”. Como o cidadão pode se proteger e se beneficiar do excesso de informações?

Há definitivamente hoje um “dilúvio de informações”. Apenas uma edição do jornal “New York Times” tem mais informação do que estaríamos expostos em toda uma vida no século XVII. Adicione a isso e-mails, internet, Twitter, Facebook… O desafio é descobrir no que confiar e em quem acreditar. Ao mesmo tempo, temos uma grande oportunidade de sermos nós mesmos compiladores de informação. Se há motivo para não confiar na versão oficial de algo, podemos buscar por conta própria ou pelos jornalistas-cidadãos. É uma grande oportunidade para ouvir as redes sociais. Só é preciso manter o cérebro ligado e tirar partido do dilúvio de informações e não se afogar nele.