Falta de dragagem no porto de Rio Grande: Entrevista Pedro Calisto Luppi Monteiro

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por Ique de la Rocha / JORNAL O SUL RS

A última dragagem no porto do Rio Grande ocorreu em 2013. Em 2015 já deveria ter sido feita outra, estamos em 2018 e ainda nada aconteceu. A Superintendência do Porto tinha uma programação para a realização no ano passado, mas o Ibama agora exige nova área de despejo dos resíduos devido a polêmica se a lama na praia do Cassino é ou não consequência da dragagem.

A SUPRG, com isso, foi obrigada a fazer novo estudo e indicar nova área de despejo. Enquanto isso não acontece, não sai o licenciamento ambiental. O assoreamento vai se agravando, o que já provocou o encalhe de um navio no primeiro semestre de 2017 e só não houve novo acidente desse tipo porque a outra embarcação acelerou a velocidade e conseguiu sair. A situação é cada vez mais delicada, tanto que em agosto último, de 30 dias, em 11 a Praticagem não conseguiu tirar os navios do porto, porque a régua da maré não atingiu 50cm. O Porto de Rio Grande, responsável pelo escoamento de 90% das exportações do Rio Grande do Sul, pode ser declarado inseguro devido à falta de dragagem.

ENTREVISTA PEDRO CALISTO LUPPI MONTEIRO, SECRETÁRIO EXECUTIVO DA DIRETORIA DOS PRÁTICOS DA BARRA RIO GRANDE

Como está a questão da dragagem no porto?

Aqui existe um assoreamento muito grande por ser estuário, porque a água doce desce para o mar e, quando entra em contato com a água salgada, o cloro faz a floculação, que é a decantação de todos os elementos que estão na água. Por isso o assoreamento aqui é muito grande. Segundo a Superintendência do Porto, os sedimentos são na faixa de 200 a 250 mil toneladas por mês. É muita coisa.

Em um ano ganha quase um metro na extensão toda de sedimentos. Por isso tem de ser feita a dragagem temporariamente para deixar o canal livre. O canal deveria estar com 16 metros, dentro dos Molhes até o porto, e lá fora 18 metros. Por causa das ondas, hoje um navio com calado de 12,80 metros (42 pés, que são a maioria dos navios graneleiros) está tocando no fundo.

Para se ter uma ideia da quantidade de sedimentos, estamos falando em 18 metros. Estamos tirando esses navios só quando existe 50 centímetros na régua de maré positiva. E a situação está piorando, porque navios porta-contêineres, com calado autorizado para 12,20 metros (40 pés) já estão tocando no fundo.

 

“Se o navio não puder sair com a carga contratada, o seguro aumenta, multas acontecem e torna-se um porto inseguro”

 

Como fica a situação para a próxima safra de grãos, a partir de abril?

É a grande incógnita. A preocupação maior é como os navios vão se comportar, porque não está se dragando e está se assoreando. Na safra fatalmente o canal estará mais assoreado e não sabemos o que vai acontecer. A esperança é que haja dragagem. A Praticagem investiu muito em equipamentos de alta tecnologia chamados Portable Pilot Unit (PPU), que mostram toda a carta do porto e os práticos vão vendo onde o navio pode passar e onde está comprometido.

Se não tivéssemos esses equipamentos, que evitam encalhes de navios, a situação seria muito pior. Mas a safra vai sair. O que vai acontecer é que vamos perder muita exportação, porque ao invés dos navios saírem com 12,80 metros ou 12,20 metros, irão sair com menos carga, que significará também menos exportação e menos dinheiro. Essa diferença dá quase seis mil toneladas de carga por navio que deixa de sair.

Existe o risco da Capitania dos Portos reduzir o calado do porto?

Até a safra vamos ver o que vai acontecer. Ou se reduz o calado ou coloca uma restrição maior.

Quais os prejuízos para o porto em caso de redução do calado?

Começa pela imagem do porto. Os contratos estão feitos pelos armadores com os terminais. Se o navio não puder sair com a carga contratada, o seguro aumenta, multas acontecem e torna-se um porto inseguro.

Pode haver cancelamento de linhas?

Também e pode levar tempo para recuperar todo conceito construído até hoje de excelente porto.

A SUPRG já falou em dragagem emergencial. Seria uma saída?

Seria excelente. O melhor que poderia acontecer. Acho que há possibilidade. O Ibama está batendo muito na dragagem de aprofundamento, mas aqui seria uma dragagem de manutenção.