Entrevista Bruno Tavares,Presidente da Praticagem de São Paulo

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 A Praticagem de São Paulo começou 2021 sob novo comando. Em 1º de janeiro, o prático Bruno Roquete Tavares, de 43 anos, assumiu a liderança da entidade. Eleito em novembro, em uma assembleia da categoria, ele terá mandato válido por dois anos. A sua responsabilidade é do tamanho do porto onde os 62 profissionais atuam na orientação da navegação dos navios nas áreas de acesso do maior porto da América Latina, o de Santos e de São Sebastião, no litoral Norte do Estado. Os práticos realizam por dia cerca de 31 manobras. São profissionais altamente qualificados que operam os portos 24 horas por dia.

Nessa entrevista ao Portos & Mercados, Bruno Tavares aborda a qualificação e capacitação dos profissionais da praticagem; os desafios para manobrar os mega navios que começam a chegar aos portos brasileiros; e a importância da dragagem para a navegação segura.  “Santos é um Porto dinâmico e por isso existe essa preocupação de dragagem de manutenção com a chegada de embarcações maiores, como as de 366 metros, não haverá margem para falhas”.

 

por Diniz Júnior

A Praticagem de Santos investe muito em tecnologia e digitalização das informações. Quais as prioridades de seu mandato para este segmento, em especial em tecnologia voltada à segurança da navegação?

Mesmo durante a pandemia, o Porto de Santos conseguiu crescer e movimentar, com segurança, mais cargas devido à competência de todos os profissionais que atuam no Porto. Se não estivéssemos prontos para passar por isso, certamente teríamos enfrentado muitas dificuldades. Nesse contexto, a praticagem é uma atividade em que a tecnologia tem importância especial e estamos sempre ligados à inovação e modernidade. Vamos continuar atentos a esse foco.

Temos equipamentos que levamos para bordo, que são os PPUs (Portable Pilot Unit), que auxiliam nas manobras de navios especiais, um C3OT (Centro de Coordenação, Comunicações e Operações de Tráfego) onde realizamos, junto com a Autoridade Portuária, o controle de tráfego e das operações dos navios. Uma boa novidade que está sendo implementada é o talão de manobra eletrônico, levado para bordo para ser assinado pelo comandante, numa espécie de “recibo da manobra”. 

Os mega navios com 336 metros de comprimento começam a chegar aos portos brasileiros onde a infraestrutura muitas vezes é regular. Como está a Praticagem de Santos para enfrentar esse novo cenário?

Será um dos grandes desafios que teremos pela frente, mas nos antecipamos na preparação dos práticos, que têm realizado os treinamentos, e a parceria com a Autoridade Portuária de Santos (APS) e a Autoridade Marítima. Investir em treinamento dos nossos profissionais é fundamental. Todos os novos tipos de navios que vêm para Santos e São Sebastião seguem uma sequência de estudos, em simuladores de manobras adequados para aquele tipo de navio que está sendo esperado no Porto.

Há quatro anos estamos treinando os práticos em centros de excelência, nos Estados Unidos e na França, com modelos de navios tripulados, simuladores de manobras, conversando e trocando experiências com comandantes que já manobram esses navios grandes, no caso dos de 366 metros. Poucos centros de treinamento tinham esse modelo de navio em escala reduzida, que é o 366.

É um modelo tripulado, diferente do simulador numérico. Nós nos deslocamos para um rio ou um lago – em geral, um lago, onde treinamos as manobras que iremos realizar no Porto. É possível, inclusive, sentir os efeitos hidrodinâmicos, diferentes de um simulador de manobras, que é como se fosse um videogame de última geração.

 

“Investimos em treinamentos e equipamentos de proteção, como EPIs, túnel de sanitização, desinfecção das instalações e lanchas, além de todo o aparato de proteção para nossos profissionais”

 

O projeto BR do Mar que visa incentivar a cabotagem no País, foi aprovado pelo Congresso e agora vai para o Senado. Qual a sua opinião a respeito?

Vemos com otimismo esse projeto. O incremento no número de embarcações a trafegar nos complexos portuários paulistas não é uma preocupação, pelo contrário. Tanto que, em julho do ano passado, foi costurado um acordo para incentivar os navios de bandeira brasileira. Pela proposta firmada com a Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), a Praticagem de São Paulo se comprometeu a não reajustar os valores de seus serviços durante cinco anos para as empresas que integram a entidade. Haverá apenas atualização monetária anual, feita em base em índices oficiais. Está previsto, ainda, um desconto especial nos preços desses serviços para navios de cabotagem com bandeira brasileira.

 

O maior porto da América Latina tem uma deficiência secular na gestão da dragagem, o que prejudica a competitividade dos exportadores e a rentabilidade dos terminais portuários de Santos. Esses gargalos fazem o país deixar de crescer pelo menos 1,5% anualmente, segundo o Banco Mundial. Qual a sua análise sobre esse tema?

Santos é um Porto dinâmico e requer a dragagem de manutenção. Com os navios de 366 metros, não haverá margem para falhas. É fundamental a ampliação da dragagem, aprofundando o canal de navegação, medida que pode ser exigida pelo Governo Federal do futuro concessionário do Porto. Se for para o bem do Porto de Santos, a Praticagem não se opõe a nada. Pelo contrário. Queremos que o Porto cresça, não pare de produzir e que a gente consiga otimizar cada vez mais as operações e a dinâmica do complexo.

 

“Na praticagem, enfrentamos com segurança, eficiência, planejamento e investimento, procurando prever as situações. Para isso, mudamos nossos protocolos de operação”

As adequações do projeto da ponte da Ecovias para ligar as duas margens do Porto de Santos, no litoral paulista, e que consistiu em um aumento do vão, agora com 85 metros de altura e 325 metros de largura, entre os pilares. É possível realizar a manobra dos navios sem riscos de acidentes? Quais são as sugestões da praticagem?

Continuamos atentos a essa questão. O Governo Federal já informou que pode incluir, como uma das obrigações do futuro concessionário do Porto de Santos (em substituição à Autoridade Portuária de Santos), a construção de um túnel submerso entre essas duas margens.

Nossa postura é sempre técnica. Podemos oferecer subsídios para a melhor tomada de decisão.  Na questão da ligação seca, participamos de várias simulações e nosso papel é dizer se é viável ou não para a navegação, se vai impactar nas operações do Porto de Santos e na manobra em si.

O ano de 2020 foi marcado pela pandemia do Coronavírus. Os portos em nenhum momento pararam suas operações e nem mesmo a praticagem. Como Santos enfrentou esse problema e o que pode se tirar de lição daqui para a frente?

O complexo portuário santista, de modo geral, enfrentou bem a pandemia nesse último ano. Na praticagem, enfrentamos com segurança, eficiência, planejamento e investimento, procurando prever as situações. Para isso, mudamos nossos protocolos de operação e de manobras. Tivemos que nos ajustar a novos procedimentos de segurança, com a preocupação de buscar referências internacionais, não só protocolos da própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas também da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Investimos em treinamentos e equipamentos de proteção, como EPIs, túnel de sanitização, desinfecção das instalações e lanchas, além de todo o aparato de proteção para nossos profissionais, que são responsáveis por assessorar a navegação de embarcações em áreas e acessos portuários 24 horas por dia, sete dias da semana. Como o prático é o primeiro que tem contato com as pessoas a bordo que vêm de fora, procuramos fazer de tudo para proteger, não só os funcionários da empresa, os práticos em si, mas todos os envolvidos na operação, como a tripulação do navio, os operadores portuários e a comunidade do Porto.

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