Construção naval brasileira com demanda firme para os próximos 20 anos

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Ariovaldo Rocha, presidente do SINAVAL

por Revista Fator Brasil – Neuza Maria, editora

É um segmento que além dos 78 mil empregos diretos hoje, deve gerar mais 40 mil em
até três anos, na soma dos indiretos, deve alcançar cerca de 800 mil empregos. E para falar sobre a indústria naval brasileira que hoje é líder na criação de empregos, desenvolvimento socioeconômico do país, o Portal e TV Fator Brasil entrevistou o presidente do Sindicato da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Santana da Rocha.

Fale sobre a demanda firme da indústria naval brasileira para os próximos anos: a construção de navios de todos os portes, plataformas e navios de apoio.


Ariovaldo Rocha: existe demanda real, nos próximos 20 anos, para a construção naval brasileira. Essa demanda resulta da necessidade de petroleiros, plataformas de produção de petróleo, sondas de perfuração, navios de apoio marítimo, navios para transporte de minérios e grãos, navios porta-contêiners e comboios para transporte fluvial, compostos por empurradores e barcaças. A demanda existe porque os segmentos de produção de petróleo offshore, transporte marítimo local e internacional estão em expansão e o desenvolvimento das regiões Oeste e Norte exigem o transporte aquaviário para escoamento da produção.

Para o pré-sal e demais descobertas em andamento da Petrobras qual a demanda de navios de apoio offshore?

Ariovaldo Rocha: a observação do mercado realizado pelo Sinaval indica que a perspectiva de encomendas decorrentes da prospecção do campo Libra, com investimentos anunciados de até R$ 500 bilhões, e as notícias favoráveis do campo de Franco, podem representar demanda de 100 novos navios de apoio marítimo.

Existe um grande projeto de fortalecimento da indústria da construção naval que passa pelo “Conteúdo Nacional” tocado pelo Sinaval, qual é?

Ariovaldo Rocha: o projeto de implantação e fortalecimento da indústria da construção naval brasileira é uma política publicado do Estado brasileiro, no atual governo. O Sinaval participa do programa de “Conteúdo Local” na indústria naval e de petróleo e gás, através do seu grupo de trabalho que promove a integração de informações com rede de fornecedores.

E o Promef 3, já é realidade? Poderá ser lançado ainda este ano?

Ariovaldo Rocha: o Sinaval concorda com a visão do presidente da Transpetro, Sergio Machado, de que a exploração do campo de Libra, onde existem reservas estimadas em oito bilhões de barris de petróleo, vai exigir mais navios petroleiros. Portanto, a decisão de iniciar o planejamento de uma nova fase do Promef é uma real necessidade. Cabem à Transpetro as decisões sobre o Promef 3.

Quantos estaleiros estão funcionando hoje no Brasil, quantos ampliando, em construção, e se tem outros que vem por aí?

Ariovaldo Rocha: o Sinaval tem 50 associados, dos quais 44 são estaleiros, os demais são empresas que participam do capital de estaleiros. Quatro estaleiros estão em implantação: Enseada, na Bahia; o Jurong Aracruz, no Espírito Santo; EBR, no Rio Grande do Sul e o Oceana, em Santa Catarina.

Quantos empregos tem hoje a indústria naval brasileira? E quanto ainda para crescer?

Ariovaldo Rocha: os empregos diretos nos estaleiros são estimados em 78 mil pessoas. Há uma previsão, realizada pelo Sinaval com os estaleiros, de que nos próximos três anos sejam gerados mais 40 mil empregos, portanto, em 2017 o setor deve somar cerca de 120 mil empregos diretos. O total dos indiretos, deve alcançar cerca de 800 mil empregos. Mas, tudo depende do comportamento do mercado e dos contratos de construção de navios e plataformas de petróleo.

É verdade que enquanto os outros setores sofreram uma certa paralisada em 2013, freando a criação de empregos, a indústria naval atravessou o ano com alta no setor?

Ariovaldo Rocha: pelas informações disponíveis na estatística de emprego ocorreu uma redução na demanda dos trabalhadores, resultado de uma redução da indústria de bens de consumo. No setor da construção naval a realidade é que o mercado está em expansão. Navios e plataformas são itens necessários para esta próxima fase do desenvolvimento do Brasil, onde a produção de petróleo e gás passa a ser um segmento de grande relevância.

Qual a participação em valores/percentagem da indústria naval hoje no PIB Nacional?

Ariovaldo Rocha: a indústria do petróleo representa cerca de 12% do PIB brasileiro e, até 2020, a participação aumenta para 20%. A construção naval não é medida individualmente pelo IBGE, nos números das contas nacionais que estabelecem os critérios de cálculo do Produto Interno Bruto brasileiro (PIB). O IBGE está em processo de mudanças de critérios para cálculo do total da produção brasileira, estimado, em 2013, em R$ 4,7 trilhões. A construção naval geralmente é incluída no setor da indústria automotiva. Mas, a importância da construção de equipamentos de exploração para a produção de petróleo em alto mar pode promover uma mudança nesse critério.

Comente a colaboração no desenvolvimento econômico e social do país, que passa pela indústria naval.

Ariovaldo Rocha: Em 2013, um estudo encomendado pela Lyods Register identificou a indústria naval – construção naval e transporte marítimo – como um dos setores dinâmicos essenciais para um país ampliar sua inserção internacional e atrair investimentos. As descobertas brasileiras de petróleo são o principal impulsionador da construção naval brasileira. Nos últimos dez anos, uma capacidade produtiva distribuída em diversas regiões do país, gerando emprego, renda e promovendo o desenvolvimento socioeconômico, foi estabelecida a partir de polos navais formados ao redor dos estaleiros.

O senhor afirmaria que hoje o Brasil tem uma indústria naval robusta com tecnologia e, mão de obra especializada?

Ariovaldo Rocha: o Brasil tem hoje uma robusta indústria da construção naval, com ampla participação de empresas internacionais, que atraem investimentos dos maiores fornecedores de equipamentos e sistemas, criando um ciclo virtuoso de investimentos, implantação de unidades locais e formação de recursos humanos. Tanto no Brasil, quando nos demais países onde a construção naval tem presença relevante, existe a necessidade de aumento da produtividade, capacitação de RH e desenvolvimento de tecnologia e inovação.

O grande esforço e competência empresarial articulados junto aos governos colaborou para o reerguimento e crescimento do segmento naval e offshore no Brasil?

Ariovaldo Rocha: a expansão da construção naval brasileira é um processo que está em desenvolvimento há mais de dez anos. Atingiu o estágio atual através da existência de uma política pública, dos financiamentos do FMM para a construção de navios e outros, os planos de negócios da Petrobras, a decisão dos empresários em investir e contrair financiamentos para construção de estaleiros e navios e da decisão dos governos estaduais e municipais de apoiar o setor.

Tem algum gargalo no setor que o senhor gostaria que fosse resolvido, por exemplo, fornecedores de navipeças qualificados para o segmento?

Ariovaldo Rocha: a indústria, em especial, a construção naval, existe num ambiente dinâmico em que a mudança é a regra. O aperfeiçoamento é constante em todas etapas da produção. Existe espaço permanente para melhorias e avanços.

O segmento do aço brasileiro é crítico sobre as importações de aço da China. Qual a posição do setor naval?

Ariovaldo Rocha: a indústria siderúrgica é uma parceria essencial da construção naval. Em países da Ásia os grupos que controlam os estaleiros também produzem aço. No Brasil o aço naval, aço estrutural de chapa grossa, é fabricado exclusivamente pela Usiminas-Cosipa. É uma situação especial, onde inexiste concorrência. Ao mesmo tempo, a indústria siderúrgica da China se tornou a maior do mundo. Portanto, é inevitável que exista a importação de aço da China, que está investindo na conquista de mercados com investimentos na qualidade e melhor produtividade.

Mais sobre esta entrevista em vídeo na Home e Canal da Indústria Naval & Offshore no Portal Revista Fator Brasil e nas redes sociais.