As carências da Petrobras

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Editorial O Estado de S.Paulo

Embora seja possível identificar sinais de maior realismo da direção da Petrobrás na programação dos investimentos para os próximos cinco anos – que serão US$ 16,3 bilhões, ou 6,8%, menores do que os previstos na programação quinquenal aprovada no início do ano passado -, resultados econômico-financeiros recentes e práticas empresarias adotadas por imposição do governo do PT deixam sérias dúvidas sobre a capacidade da estatal de executar o programa sem se endividar ainda mais ou sem contar com alguma forma de parceria.

Ao comentar com analistas do mercado os resultados da empresa em 2013, o plano estratégico para 2030 e o plano de negócios e gestão para o período 2014-2018, sua presidente, Maria das Graças Foster, foi enfática ao afirmar que procurará, em sua gestão, assegurar a boa classificação da Petrobrás pelas agências avaliadoras de risco. A preservação do grau de investimento da estatal é indispensável para a captação no mercado dos recursos de que ela necessitará nos próximos anos, reconheceu.

No entanto, a evolução da dívida da Petrobrás, um dos fatores que mais pesam na avaliação das agências, é preocupante. De R$ 61 bilhões em 2010, a dívida passou para R$ 221,4 bilhões no ano passado. O aumento em relação ao total apurado no fim de 2012 foi de praticamente 50% em um ano.

Transformada em índices, essa evolução causa preocupações ainda maiores. As agências consideram saudável uma relação entre dívida e capacidade de geração de caixa de 2,5 vezes, mas, no ano passado, essa relação no caso da Petrobrás alcançou 3,52. Outro índice é expresso pela porcentagem da dívida em relação ao patrimônio líquido. Quando a dívida não ultrapassa 35% do patrimônio, a situação da empresa é considerada confortável. No ano passado, a dívida da Petrobrás alcançou 39% do patrimônio.

Esses indicadores melhorariam se a Petrobrás conseguisse acelerar a geração de caixa e, assim, reduzisse suas necessidades de financiamento para a execução de seu programa de investimento. Mas suas principais fontes de receita estão travadas, de um lado, pela estagnação da produção de petróleo, que há cerca de cinco anos se mantém no mesmo nível, inferior a 2 milhões de barris diários; e, de outro, pelo severo controle do preço do combustível que ela vende no mercado.

A despeito de ter alcançado 400 mil barris diários, a produção do pré-sal não foi suficiente para compensar o esgotamento dos poços em operação – embora gradual, a redução da produção desses poços tem sido mais rápida do que a média internacional. Há oito anos o então presidente Lula anunciou com estardalhaço a autossuficiência do País em petróleo, mas o Brasil ainda não produz com regularidade o necessário para atender ao consumo interno, o que, reconhece a diretoria da Petrobrás, poderá ocorrer no próximo ano.

Quanto ao abastecimento de combustível, a empresa deixou de investir a tempo em novas refinarias para atender à demanda interna crescente, e fortemente estimulada pelo governo com os sucessivos incentivos à indústria automobilística, e está tendo de importar produtos refinados. Como importa diesel e gasolina a preços mais altos do que os que o governo lhe permite cobrar do consumidor brasileiro, essa operação é fonte de prejuízos. Além disso, os preços autorizados pelo governo não cobrem os custos, razão pela qual a Petrobrás acumula perdas também com uma de suas principais atividades, a de refino.

A área de abastecimento teve prejuízo de R$ 17,8 bilhões no ano passado e terá perdas também em 2014, pois, como reconheceu Graça Foster, os preços internos continuarão inferiores aos internacionais. Mesmo precisando aumentar a capacidade de refino, para reduzir sua dependência à importação de derivados, a empresa cortou substancialmente sua programação de investimentos para a área de abastecimento, de US$ 64,8 bilhões previstos no plano quinquenal aprovado no ano passado para US$ 38,7 bilhões no novo plano.

O que esses números indicam é a repetição dos maus resultados de 2013.