Mudança climática já ameaça cidades litorâneas do país, aponta relatório

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Os pesquisadores procuraram estudar impactos e exemplos de adaptação no Rio, Santos, no Vale do Itajaí, em Salvador, Fortaleza e Recife
Os pesquisadores procuraram estudar impactos e exemplos de adaptação no Rio, Santos, no Vale do Itajaí, em Salvador, Fortaleza e Recife

O custo do impacto da mudança do clima pode ultrapassar R$ 300 milhões apenas no sudeste da cidade de Santos ao longo deste século. Na área, densamente construída, vivem 34 mil pessoas próximas ao mar, e já vem sofrendo com ressacas, inundações e tempestades mais intensas e frequentes. O dado pioneiro é subestimado porque considera apenas o valor venal das construções, mas pontua um cenário que pode ser extrapolado para as cidades costeiras do Brasil caso não se adaptem à mudança do clima.

A necessidade de estudar, registrar, monitorar e preparar os centros urbanos que estão na linha da costa brasileira é uma das mensagens mais fortes do relatório “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, que será lançado hoje em seminário no Museu do Amanhã, no Rio, promovido pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, o PBMC. Trata-se de uma entidade nacional que tem como objetivo reunir, avaliar e sintetizar o que já existe de estudos sobre mudança climática no Brasil, inspirada no Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, o IPCC, da ONU.

Estima-se que 60% da população brasileira viva em cidades costeiras. “As cidades estão assumindo protagonismo em enfrentar a mudança do clima porque o mundo está cada vez mais urbanizado”, diz Suzana Kahn, presidente do PBMC, que produziu o relatório. Este movimento dos governos locais tem sido uma das reações nos Estados Unidos à saída do Acordo de Paris anunciada pelo presidente Donald Trump.

“O impacto da mudança do clima nas cidades é mais grave. E no caso do Brasil, grande parte da população vive na costa”, continua Suzana, também professora da Coppe-UFRJ, o centro de pesquisa em engenharia ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. “E o litoral está mudando”, diz a pesquisadora.

As cidades costeiras são muito vulneráveis às consequências da mudança do clima como o aumento do nível do mar, as ondas de calor, as inundações e secas, reafirma o relatório, o primeiro, específico para a área costeira. A instabilidade fica maior com o aumento na intensidade das chuvas, inundações e deslizamentos. O quadro piora com o aumento das tempestades e dos ventos, que dão mais força às ressacas.

“Quando se fala em aumento do nível do mar, as pessoas pensam em uma banheira, com a água subindo”, diz José A. Marengo, coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Mas é mais complexo que isso. O mar sobe e há a interação com ventos, tempestades, ondas maiores. “Pode ser um fenômeno gradual em que ondas crescem ou as águas entram mais dentro de uma cidade depois de uma tempestade”, continua.

Os efeitos podem ser múltiplos. Desde o esgoto sendo empurrado pelo mar para dentro da cidade tornando-se fonte de doenças, à contaminação de aquíferos pela água salgada e enchentes provocadas pela invasão do mar aos rios. As inundações têm potencial para causar transtornos à rede de transportes, danificar escolas e hospitais e causar estragos à infraestrutura urbana de modo geral. “Embora este seja um tema importante, no Brasil é quase inexplorado”, diz Marengo, co-autor do estudo.

Os pesquisadores procuraram estudar impactos e exemplos de adaptação no Rio, Santos, no Vale do Itajaí, em Salvador, Fortaleza e Recife. Quase não encontraram informações. A exceção foi Santos, com dados organizados e um plano municipal de adaptação.

Uma das conclusões do relatório foi constatar a grande falta de informações e estudos científicos sobre os impactos da mudança do clima nas cidades costeiras brasileiras. “Não temos ciência o bastante”, diz Fabio Scarano, diretor executivos da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e professor de Ecologia da UFRJ. “Estas lacunas de conhecimento tornam as cidades costeiras ainda mais vulneráveis”, continua.

Scarano lembra que a adaptação baseada em ecossistemas é muito mais barata que a de infraestrutura. “Se tiver que construir um dique será muito mais caro do que restaurar um mangue”, exemplifica. “Adaptação é uma agenda para hoje. A cidade tem que ter isso como estratégia. E pode gerar empregos com isso. Reduzir pobreza é adaptativo”, diz ele.

Isso significa, por exemplo, engordar a praia com areia de outros lugares, como foi feito em Cancún e Miami. Ou restaurar morros como feito no Morro da Babilônia, evitando deslizamentos e empregando gente no processo. Ondas de calor podem ser evitadas com planos de arborização urbana, diz Scarano. No Rio, o déficit estimado é de 800 mil árvores.

Fonte: Valor

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