Especial: Bravo Zulu- No Extremo do Mundo

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Por Diniz Júnior / Especial

Fazer ciência na Antártica envolve uma logística complicada e de precisão. Não podem  ocorrer erros, nenhum imprevisto. A preparação começa meses antes da partida. A Operação Antártica (OPERANTAR) é coordenada pela Marinha do Brasil, por meio da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar.

O navio Polar Almirante Maximiano está no porto gaúcho do Rio Grande sendo abastecido em mantimentos, equipamentos e roupas. O trabalho é coordenado pela Estação de Apoio Antártico ( ESANTAR) da FURG. Amanhã ( 03) o navio parte rumo a Antártica dando início a OPERANTAR 39. O ano passado participei da OPERANTAR 38 a bordo do Tio Max a convite da Marinha do Brasil e descrevo abaixo a importância desse navio para o sucesso das operações antárticas.


 

Maximiano da Fonseca atracado na Ilha de Rei George. Cerca de 40% das pesquisas brasileiras realizadas na Antártica são produzidas a bordo dos cinco laboratórios do navio. Fotos Guga Volks

Jamais esquecerei os 20 dias que passei a bordo do navio polar Almirante Maximiano da Fonseca, o Tio Max. Foi na OPERANTAR 38 realizada o ano passado. Muitos imprevistos até embarcar no Tio Max que aguardava em Punta Arenas, no sul do Chile. A embarcação é responsável por cerca de 40% das pesquisas antárticas do Brasil. A história do Tio Max começou em 1974, nos Estados Unidos. Ele foi construído para ser um navio de apoio para as plataformas de petróleo do Mar do Norte – o Suply Vessel. Em 1988, passou por uma grande reforma em que só a quilha original foi mantida. Virou então o navio pesqueiro Ocean Empress. Após ser adquirido pela Marinha, passou por outra reforma – desta vez, na Alemanha – e ganhou cinco laboratórios, acomodações para 119 pessoas (30 pesquisadores), hangar e convés de voo, para operação de helicópteros. Em 2001, aumentaram em 25 milímetros a espessura do casco o que deixou o navio mais resistente e seguro para viajar no mar antártico.

Em 2010, recebeu equipamentos para pesquisa, incluindo guinchos oceanográficos, ecobatímetros para medir grandes profundidades, doppler para perfilar correntes e termossalinógrafo, para medir temperatura e salinidade da água. O casco, pintado de vermelho, recebeu a inscrição H41 e o nome mudou de novo para homenagear o almirante de esquadra Maximiano Eduardo da Silva Fonseca (1919-1998), que, entre outros feitos, foi ministro, criou o corpo feminino da Marinha e comprou o Barão de Teffé, navio onde foi feita a primeira operação antártica. O retrato do almirante e sua espada estão hoje na Praça D’Armas, o espaço de refeições e convivência do navio.

Pesquisadores do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) realizam operações com sensores que são sondas presas aos balões meteorológicos que coletam perfis atmosféricos, temperatura do ar, velocidade, intensidade dos ventos e umidade do ar.

O navio pode navegar por 42 dias sem parar. Tem a capacidade de gerar 20 toneladas/dia de água doce, o suficiente para a demanda ideal de 120 litros por homem/dia, de uma tripulação de 106 embarcados. A rotina a bordo é militar. Levantar cedo, arrumar o alojamento, recolher o lixo, faxina nos corredores do navio e no banheiro dos camarotes. As tarefas são inúmeras e exige disposição, boa vontade e companheirismo.

INCERTEZAS

Passagens compradas e depois canceladas. Até decolar de São Paulo num voo comercial eu ainda tinha uma série de dúvidas se de repente não mudaria tudo de novo e surgiria um novo pedido para aguardarmos mais alguns dias. Mas desta vez cheguei a Santiago para embarcar em outro voo com destino a Punta Arenas. É nesta simpática cidade que que saem os voos dos cargueiros da FAB, e os navios da Marinha do Brasil.

Estipular com certeza a data de decolagem, ou a partida dos navios é impossível. Só se consegue voar para a Antártica, ou navegar até lá quando a janela meteorológica está aberta. Muitos desistiram. Na minha primeira viagem a bordo do Tio Max vencemos os 1,2 mil km de distância que separam a ponta da América do Sul da Ilha Rei George, onde ficam bases antárticas de vários países, inclusive as do Brasil e do Chile.

Nenhum caminho na Antártica é fácil. Desde os primeiros exploradores, que lá chegaram há cerca de 200 anos, até os dias de hoje, as atividades executadas são sempre conduzidas com muito profissionalismo, e muito sacrifício, além de uma enorme coragem. Sim, a Antártica é para os fortes. Acreditem.

O NPo Almirante Maximiano (H-41), ex-Ocean Empress, é um navio de pesquisa polar da Marinha do Brasil. Foto Alan Arrais – Agência Brasil

A FÉ A BORDO DO TIO MAX

Voltamos a rotina marinheira. O boletim Alvorada chega pelos alto-falantes exatamente às 7 horas. Começa com uma música, e prossegue com uma sequência de informações úteis para quem está a bordo: localização do navio, se está navegando ou fundeado. Depois, relata as notícias principais do dia, avisa se tem algum aniversariante a bordo, dá resultados de jogos do dia anterior e repete uma das informações que dava medo e arrepios: que uma pessoa só consegue sobreviver 90 segundos se cair no mar gelado da região.

Às terças e quintas há cultos evangélicos e às quartas e domingos, missas católicas. A oração final começa com um pedido de “águas tranquilas” nos próximos dias. “ Que Deus abençoe a proa do Tio Max”, finaliza o Capelão Sérgio Nascimento da Costa. De vez em quando, há alguma confraternização a bordo. Bebidas são controladas. Quem está de serviço não pode beber. A operação antártica é considerada a mais complexa da Marinha, porque o navio se afasta muito dos pontos logísticos. Aqui é proibido falhar. Qualquer erro pode ser fatal.

A fé embala o Tio Max em águas geladas e perigosas. O culto é feito na biblioteca do navio

 

 

 

 

 

 

 

O TERROR DOS PRIMEIROS EXPLORADORES

O percurso de cerca de mil quilômetros entre a Antártida e a Terra do Fogo, no extremo da América do Sul, é baseado em dados meteorológicos. De Punta Arenas, no Chile, até a Antártica, passa-se no mínimo 36 horas em águas turbulentas: atravessar as águas mais revoltas do mundo, o canal do Drake, cujas ondas podem ultrapassar 12 metros, é um grande desafio.

O canal é a passagem mais próxima entre o continente austral e a América do Sul. O comandante Capitão de Mar e Guerra João Cândido Marques Dias e a equipe do Tio Max avaliam o melhor momento de entrar no canal, na tentativa de não enfrentar ondas maiores que quatro metros. O plano é sempre atravessá-lo entre uma frente fria e outra para tentar enfrentar o mar menos agitado possível. Nem sempre, porém, isso é possível. Somente com informações sobre ondas e ventos na tela do computador é que o comandante decide se vai enfrentar o Drake ou esperar mais algum tempo para a frente fria se afastar.

Os ventos, a baixa visibilidade e as fortes correntes da Passagem de Drake são algumas das características da área marítima de cerca de 800 km, onde o Pacífico e o Atlântico se encontram. Foto JONNE RORIZ

Antes da entrada no Drake, todos os objetos soltos do navio são peiados (amarrados na linguagem naval) para que não “voem” na hora em que o mar estiver revolto e o navio balançando. É comum passar mal ou “marear” a bordo. A recomendação é que quem não está de serviço fique deitado na cama ou na refeição. Um dos truques é não ficar de estômago vazio.

O nome do Mar de Drake se deve ao britânico Francis Drake, que, ironicamente, preferiu não passar por aqui e desviou pelo Estreito de Magalhães, que costuma ter águas mais tranquilas. Levantar cedo, arrumar o alojamento, recolher o lixo, faxina nos corredores do navio. As tarefas são inúmeras e exige disposição, boa vontade e companheirismo. Na área de lazer, o navio conta com uma academia de ginástica para quem deseja manter a forma e uma sala de vídeos para quem não tem muita disposição para o esporte.

BRAVO ZULU

Última fronteira da Terra conquistada pela humanidade, a Antártica ainda esconde riquezas e mistérios. Um Brasil e meio. Mais precisamente 1,6 vezes o território brasileiro. Esse é o tamanho do continente antártico, com quase 14 milhões de km2.Viajei ao continente antártico acompanhado do fotógrafo Guga Volks e do cinegrafista Thiago Piccoli Cunha com a proposta de mostrar um lado que dificilmente aparece nas reportagens sobre a Antártica. As pessoas nem imaginam as dificuldades que enfrentam os pesquisadores e o pessoal da Marinha.

A vida dos marinheiros, que passam meses a bordo dos navios antárticos; os mergulhadores que pulam na água gelada para empurrar os botes dos pesquisadores; os tripulantes e sua disposição ímpar. Militares e cientistas superam as dificuldades da rotina, do frio e do isolamento, e é todo esse esforço que garante a presença brasileira no continente fazendo as pesquisas. Esse será o foco principal do livro Bravo Zulu: No Extremo do Mundo que será lançados em 2021.

Thiago Piccoli Cunha, Diniz Júnior e Guga Volks a bordo do Tio Max chegando ao continente antártico.

Em uma tarde fria de novembro fomos surpreendidos. Chega a informação de que o nosso retorno em terra firme, na cidade de Punta Arenas, foi antecipado em três dias por causa das condições meteorológicas no Estreito de Drake. Nossa ideia era retornar à Estação Comandante Ferraz para fazer o perfil do Grupo Base, os 16 militares que estão enfrentando o inverno antártico isolados do mundo. Estive na Estação Ferraz em 1986 e 1996 quando realizei reportagens para a RBS TV e 24 anos depois, retornei e senti de perto a vibração de pesquisadores e militares que realizam no continente as suas tarefas. A mesma vibração de quando cheguei na Antártica pela primeira vez em 1986.

Para muitos viajar até a Antártica é a realização de um sonho quase impossível. Afinal, o continente gelado é a região mais isolada do planeta e chegar nele não é uma tarefa nada fácil. Pretendo voltar, ainda não sei quando. Só tenho que agradecer a Deus por mais um retorno a Ferraz, agora remodelada. A beleza do mar, o pôr do sol, a aventura, os amigos antárticos.

Tudo valeu a pena. Voltamos para casa mais preocupados com o aquecimento global, que ano após ano está mudando a paisagem na Antártica, um cenário que nos fez perder o fôlego tantas vezes está ameaçado e o planeta também. O destino de ambos está nas mãos de gaúchos, paulistas, cariocas, de tantos brasileiros, de pesquisadores do mundo todo que apostam suas vidas em uma solução… Que Deus abençoe a proa do Tio Max.