Entrevista – Pela segurança na navegabilidade do Porto de Santos

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A coluna “Cais das Letras” conversou com o presidente da Praticagem do Estado de São Paulo, Carlos Alberto de Souza Filho. Ele falou sobre as adequações do projeto da ponte da Ecovias para ligar as duas margens do Porto de Santos, no litoral paulista, e que consistiu em um aumento do vão, agora com 85 metros de altura e 325 metros de largura, entre os pilares. Segundo ele, é possível realizar a manobra dos navios, mas o risco c

Como foi a participação da Praticagem no processo de simulação?
Carlos Alberto de Souza Filho – A Praticagem não aprova nem desaprova, tenta viabilizar as operações sempre que algo diferente surge, como um novo terminal que vai ser construído ou um novo tipo de navio que vai operar no porto. A Marinha do Brasil, que é autoridade marítima, toda vez que surge novo projeto, novo obstáculo, como é o caso da ponte, solicita simulações computacionais para verificar se isso representa risco inaceitável para a navegação.

No caso da ponte se testou todos as condições de maré, manobra noturna, ventos de diversas direções, navios de diferentes tipos de calado, diferentes correntes de maré, emergências de falha de leme, perda da máquina pelo navio. Fizemos várias corridas com 4 práticos participando das simulações, com suas diferentes experiências, para poder se chegar a uma média de consenso com segurança. É isso que vendemos, segurança no tráfego. Se um navio bate, tem-se um problema ambiental, derramamento de óleo, tem que fechar o Porto etc. Nossa atividade principal é prover segurança e, em segundo lugar, agilidade das manobras.

Estão para chegar os navios de 360 m esse ano. Mas ninguém empurrou Guarujá para um lado e Santos para o outro. Fazer dragagem, para nós não facilita, aumenta-se a profundidade, mas aumenta-se o calado também.

Qual projeto de ligação seca promove mais segurança à navegaçao?
É obvio que um túnel em termos de segurança da navegação é muito melhor, ele não é obstáculo no mar, afinal nem o enxergamos. Isso é o ideal, nota dez. O túnel escavado entra num ponto e sai no outro, é como se faz metrô, a máquina vai furando, passa por baixo do leito do canal. Menos ideal é túnel submerso, aí vai ter equipamentos e dragas que vão cavar no fundo do mar e colocar sessões cilíndricas lá embaixo, então o túnel vai sendo depositado lá embaixo por tubulações, tipo manilhas gigantes, depois tem o túnel. Durante a construção tem transtorno, é preciso interromper o canal em alguns momentos, vai ter estruturas flutuantes durante a construção.

A ponte tem pilares, e enquanto tiver pilar dentro da agua haverá risco. O projeto original da Ecovias tinha nível de risco, fizemos testes, e depois na reunião com o secretário João Octaviano na Associação Comercial discutimos o tema. Explicamos que qualquer coisa que se construa na agua é risco, mas é contornável, é exequível a ponte. Pode-se fazer manobras com ponte, e quanto maior o vão, menor o risco. Mas o ideal é o pilar fora da água. O vão é alto, de 80m, 85m, e não interfere em nenhum navio existente no mundo. Nosso trabalho é pensar o que é importante para o país, tem que dar a cota de mitigar o risco, é possível, mas vai requerer da nossa parte adaptações. Hoje, se eu errar, se cometer um erro, na situação que o canal está, atropelo boia, encalho na lama macia. Do lado de Guarujá tem uma pedra, e se o navio encostar nela, pode-se derrubar óleo. Os problemas mais comuns podem surgir por falha humana do prático ou do timoneiro, ou por falha de máquina do navio, ou do leme, e as consequências são menores hoje do que se tiver um pilar ali. Há proteção no pilar, mas não no navio.

Houve melhoria no projeto da ponte?
O projeto da ponte tem uma melhora em relação do projeto anterior, diminui o risco, enquanto o túnel não teria risco nenhum, isso é óbvio para qualquer pessoa. Não estou desdizendo a ponte. Não opinamos sobre mobilidade urbana, sobre vantagens para um e outro, ou sobre projeto de expansão do Porto. Como cidadão tenho uma opinião, mas aqui falo institucionalmente. Nós tratamos da segurança da navegação e manobrabilidade do navio e operacionalidade do Porto.

Resumindo, o projeto original tem riscos – adaptações foram feitas, a Engenharia adaptou, a Ecovias foi em três reuniões conosco, conversamos, ampliaram o vão, o risco diminuiu, mas ainda existe.A Praticagem se adequa e se esforça para viabilizar para o melhor para o Porto.

Fonte: Márcia Costa, Jornalista, fotógrafa, pesquisadora, docente, pós-doutora em Comunicação e Cultura e diretora da Cais das Letras Comunicação. Contato: marciacosta@portogente.com.br