Submarino ARA San Juan, uma tumba que completa dois meses no fundo do mar

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Familiares da tripulação do ARA San Juan seguram fotos dos desaparecidos em frente à embaixada da Rússia em Buenos Aires Sebastian Pani AP

por Ramiro Barreiro / El País

As famílias dos 44 tripulantes do submarino ARA San Juan decidiram retornar à base naval de Mar del Plata para continuar sua vigília e insistir em suas exigências a respeito do resgate da embarcação, da qual não se tem notícias desde 15 de novembro do ano passado. A parte mais intensa da busca terminou há várias semanas, e atualmente só três navios rastreiam o fundo do mar argentino. Boa parte dos familiares recorda os dois meses de espera com atos nesta segunda-feira em vários pontos do país, reivindicando que o Governo argentino envie pelo menos mais dois navios.

Yolanda Mendiola vai todos os dias à base naval de Mar del Plata e recebe os informes de busca do submarino onde viajava seu filho, o primeiro cabo Fabián Cisneros. As mensagens não são mais dadas pelo porta-voz da Marinha, Jorge Balbi, como há dois meses. Não há sequer um funcionário encarregado do assunto. São textos acompanhados de uma projeção que mostra um mapa e três navios, o Yantar russo e o Ilhas Malvinas, da Argentina, e a corveta Spiro, também local, únicos atores de uma busca que chegou a ter quase 30 embarcações e nove aeronaves de 18 países. Pelo menos por ora, a presença russa na Argentina está garantida, segundo dizem os familiares. Fontes da Presidência indicaram também que é uma prioridade manter a busca da embarcação.

Mendiola e outras mulheres das famílias dos 44 decidiram instalar-se novamente na Base Naval. Segundo lhes disseram, a instituição as abrigará, embora não lhes forneça alimentos. Esperam pelo presidente, Mauricio Macri, a governadora de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, e o ministro da Defesa, Oscar Aguad, para que assinem a ordem de rastreamento de um local específico, a 240 quilômetros da costa, diante da Península Valdés.

O lugar não é apontado por exames de um sonar, mas por uma fonte menos ortodoxa, entregue pelos familiares. “Esse local coincide com o que diz uma vidente argentina e um xamã do México que, sem se falarem, marcaram o mesmo ponto no mapa”, diz Mendiola. “Ali foi feita apenas uma varredura, de leste a oeste, com o navio Sarandi, e depois se retiraram. Rastrearam 20 milhas em apenas quatro horas e nós, os familiares, nos surpreendemos muito”, acrescentou a mulher.

A vidente viajou para Mar del Plata em 1º de janeiro. De acordo com seu relato, marcou diante dos comandantes o ponto em questão em uma carta náutica. Depois fez o mesmo em Puerto Belgrano. Prefere manter sua identidade oculta, mas em diálogo com EL PAÍS afirma que seu único objetivo é “ajudar que o submarino seja encontrado”. “Eu o estou situando na zona mais ao norte do suposto ponto de explosão. Vi a posição do submarino, com a ponta para a costa oeste desde o dia 18, e sofreu um golpe na popa”, revela. E acrescenta: “Sinto muita impotência por não o encontrarem, sabendo que está ali e que até o momento estavam todos vivos. O oxigênio estava terminando mas estão perto de Mar del Plata, como disse aos comandantes em Puerto Belgrano, estão buscando no fundo do pátio quando o têm na porta”.

A carta náutica marcada pelos videntes, e o quadro em onde estaria o submarino.
A carta náutica marcada pelos videntes, e o quadro em onde estaria o submarino.
 

À espera do milagre

A versão dada pela vidente é recorrente entre os familiares, que já não encontram onde se aferrar para não perder as forças. Marta Vallejos, irmã do suboficial Celso Oscar Vallejos, foi até além: “Fiz uma viagem astral e tive uma conexão com os rapazes do ARA, sobretudo com meu irmão. A mensagem de meu irmão é que eles seguiram o caminho até Mar del Plata, que está a pouca profundidade e perto da costa”. “Não queremos que nos mintam mais e nos queiram fazer acreditar em algo que não sentimos. Pedimos que o presidente nos atenda”, pediu a mulher, que manteve um jejum de vários dias.

“Sinto impotência por nosso país não estar preparado para uma situação assim”, resume Marcela Moyano, esposa do primeiro suboficial Hernán Rodríguez. “É impressionante o apoio das pessoas quando nos veem nas mobilizações. Pedem que prossigamos, se emocionam e nos aplaudem. A sociedade está muito irritada porque deixou de ser informada. Não se disse mais nada e as pessoas perguntam a nós. Na Marinha nos disseram que deixaram de dar informes porque os jornalistas já não vão às coletivas de imprensa”, diz a mulher.

No início de dezembro, um especialista naval dos Estados Unidos declarou que o ARA San Juan sofreu uma implosão repentina e seus tripulantes morreram de modo instantâneo, sem sofrimento. Consultada sobre isto, Moyano afirma que “a dor e a incerteza que temos é justamente por não saber se foi afetado pela explosão ou não, se foi atacado ou se foi pulverizado. A Marinha não nos avisou nada e não há nada confirmado. Nós estamos com a fé intacta, pedindo que se apressem para buscá-los. Mas vemos que não estão se mexendo.” Os parentes insistem em que sejam enviados os navios Angelescu e o Austral, que possuem um bom sonar.

“Eu sou católica, acredito nos milagres e penso nos mineiros do Chile e nos sobreviventes da tragédia dos Andes”, observa Isabel, irmã do cabo Daniel Alejandro Polo. “Tudo pode acontecer e a única pessoa que sabe é Deus. Não acredito nos videntes e, pessoalmente, não creio nessa versão”, ressalva a mulher, que depois de alguns segundos diz: “Acredito, sim, no que diz Marta Vallejos. Nessas conexões, sim, eu acredito”.

MORTE

A família da primeira submarinista da Argentina, Eliana Krawczyk, perdida no ARA San Juan, lamentou há poucos dias a morte de Eduardo, outro dos irmãos, que lutou contra um câncer até a noite de 5 de janeiro. Nascido em Oberá, Missiones,como suas irmãs Silvina e Eliana ingressou na Marinha e obteve honras de condutor de máquinas navais. A família emitiu um comunicado no qual esclarece que “embora a ausência de Eliana tenha afetado seus entes queridos, o quadro de Eduardo era irreversível”.