Os charmosos bondes de Rio Grande

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Bonde elétrico se dirigindo ao abrigo dobrando da rua Gen. Vitorino, ingressando na 24 de Maio, ano de 1964. Foto by Allen Morrison/Ray de Groote
Bonde elétrico se dirigindo ao abrigo dobrando da rua Gen. Vitorino, ingressando na 24 de Maio, ano de 1964. Foto by Allen Morrison/Ray de Groote

por Willy César

Rio Grande andou muito de bonde: de 1884 a 1967.

Em novembro de 1884, foi implantado o primeiro serviço de bondes com tração animal (mulas) por Antônio Candido Siqueira, o mesmo que inaugurou a linha férrea para a praia balnear, Cassino, em janeiro de 1890.

A energia elétrica chegou ao centro da cidade em 1908 e, em novembro de 1911, circulou a primeira linha experimental de bonde elétrico. O intendente Trajano Lopes conseguiu convencer a Companhia Francesa a assumir o serviço, que precisava de modernização. Foi implantado o sistema elétrico, para atender aos seus próprios trabalhadores, em meio à construção do porto novo e molhes da Barra. Com isso, a cidade se beneficiou e começaram a correr os elétricos, que deram um toque europeu à paisagem rio-grandina.

Com a encampação do porto e todo o acervo da Cia. Francesa pelo governo do estado, em 1918, o serviço de bondes e a usina elétrica vieram junto. Passaram a ser empresa pública estadual. Foi assim até 1935, quando o estado transferiu à Prefeitura de Rio Grande os serviços de energia elétrica e bondes urbanos. Anos mais tarde, em 1951, numa reformulação das diretorias/secretarias municipais, foi criado o Serviço Rio-grandino de Transportes Coletivos – SRTC, que durou até 1967, sendo substituído pelo Departamento Autárquico de Transportes Coletivos – DATC, atual responsável pela linha rodoviária RG-PoA.

11081474_1008559479168584_5909653370804098517_nO que houve com os nossos bondes?

O serviço foi lucrativo ao tempo dos intendentes Álvaro de Carvalho, Alfredo Nascimento e João Fernandes Moreira; e prefeitos Antônio da Rocha Meirelles Leite e Roque Aíta Jr. Este último prefeito deixou o cargo em 1946. A obsolescência do equipamento começou a encrencar no pós-guerra, não houve reposição dos carros, houve reaproveitamento. Ao lado disto, a cidade começou a sofrer crise de geração de energia e captação de água. Não havia recursos no combalido orçamento municipal para modernizar a frota de bondes elétricos, pois nem energia e água havia em condições normais, setores que exigiam pesados investimentos também.

As décadas de 1950 e 60 foram de remendo em remendo nos velhos carros de elétricos. De 40 bondes na década de 1940, havia apenas três funcionando no dois últimos anos.

As linhas começaram a ser substituídas por ônibus a diesel, e gradativamente foram desaparecendo os elétricos.

Em 1º. de março de 1966, o jornal Rio Grande anuncia na capa: “bondes deixarão de circular amanhã”. A informação foi prestada pelo diretor do SRTC, Omar Dutra Pereira.

Nesta ocasião, o prefeito era o capitão Martiniano Francisco de Oliveira, eleito indiretamente pela Câmara Municipal em 1964, para mandato até 1968. Ele renunciou ao cargo em 10 de março de 1966, numa crise política que tinha a ver com o SRTC, mas com foco na linha rodoviária RG-PoA, em quebra de braço sem precedentes com a Câmara Municipal e o jornal Rio Grande. Este era furiosamente contrário à entrega da linha a uma empresa particular, desde novembro de 1964. O prefeito, desgastado com a opinião pública, renunciou antes de completar dois anos no cargo.

O interventor federal, general Armando Cattani, foi nomeado para substituí-lo em abril de 1966.

Os velhos, superados e barulhentos carros prestavam um péssimo serviço a esta altura, com atrasos, superlotados, reclamações de todo o tipo etc. Somente duas linhas ficaram funcionando após 1966, até que a Prefeitura conseguisse atende-las com ônibus. Eram as linhas Saraiva e Prado, saindo do abrigo na Tamandaré seguia pela Luiz Loréa, Aquidaban, av. Portugal; a linha Saraiva entrava na Teixeira Jr. e tinha final da linha na Bento Gonçalves, retornando ao abrigo; a Prado seguia pela av. Portugal, Henrique Pancada, passando pelo matadouro e o fim da linha era no hipódromo da vila São Miguel, retornando.

Os trilhos, postes e fiação foram arrancados nas linhas desativadas, no centro da cidade. Em novembro de 1966, o SRTC vendeu 100 toneladas de trilhos por licitação pública. O comprador que deu o maior preço foi Constantino Panagopoulos, comerciante de ferro, que ofereceu 41 centavos por quilo, pagando um total de Cr$ 4 milhões (de cruzeiros). Nesta ocasião, ainda havia trilhos por retirar na linha do porto e, também, foram vendidos para fazer caixa no SRTC.

Em março de 1967, nova informação do SRTC, no jornal Rio Grande: “ linha de bondes Prado não circula mais hoje; permanecerá apenas a linha Saraiva para atender a população daqueles bairros e vilas, enquanto não houver ônibus disponível. Os trilhos e cabos de trowley não apresentam mais condições ideais de tráfego com eficiência e segurança”. Os bondes saíam de meia em meia hora, os ônibus, de 10 em 10 minutos, então rapidamente passaram a atender melhor as necessidades da população (jornal Rio Grande, 4/3/1967, capa).

Rubens Emil Correa foi escolhido por Cattani para dirigir o SRTC assim que assumiu em 1966. Ele teve carta branca para agir. Melhorar o transporte à população era sua meta. Ainda em 1966, a linha RG-PoA retornou à Prefeitura, depois de dois anos entregue à empresa pelotense Fonseca Jr. (jornal Rio Grande, 22/9/1966, capa).

O último bonde da linha Saraiva circulou no dia 15/6/1967. No mês seguinte, Corrêa lembrou na imprensa que, ao assumir o SRTC, havia apenas três bondes velhos e enferrujados em precárias condições de tráfego (jornal Rio Grande, 17/8/1967, capa).

Foi projeto dele a transformação do SRTC em DATC, como autarquia, com mais flexibilidade operacional para enfrentar a concorrência das empresas privadas. Em poucos meses, o novo organismo comprou os primeiros ônibus monobloco da Mercedes-Benz, que proporcionaram viagens mais confortáveis na linha RG-PoA. O DATC também atendia com ônibus urbanos a linha centro-Cassino e outros recantos mais afastados do município como Taim, Quinta e Povo Novo.

Os bondes marcaram gerações. É hoje usado em vários países da Europa, há ainda alguns no continente americano, não somente linhas turísticas como a de São Francisco da Califórnia, EUA. No Brasil, há uma só linha funcionando hoje: a linha turística de Santos, reimplantada após 1995-96. Uma das linhas do morro e bairro Santa Tereza, no Rio, está em fase de reimplantação.

Transporte limpo, barato e pitoresco. Perdemos nossas linhas, mas elas engrandeceram nossa história de comunidade progressista.

Willy Cesar
Jornalista-2015.
Fotos recolhidas do site : http://www.tramz.com/br/rg/rg.html by Allen Morrison.

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