Especial: Operação minuciosa para exportar gado

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A preparação de bovinos de corte para embarcarem vivos a países como Egito e outros do Oriente Médio precisa obedecer critérios estabelecidos pelo Mapa, que incluem desde isolamento até oferta de alimentação especial

O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, de acordo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), ainda está em fase embrionária quando se trata da comercialização de gado em pé – nome técnico que indica esse tipo de transação. Em 2021, foram exportadas em torno de 2,4 milhões de toneladas de bovinos vivos em todo o mundo, esse volume representa aproximadamente 20% do comércio internacional de bovinos, considerando a soma de animais vivos e carnes. Nesse período, a participação do país foi de pouco mais 1% do total.

O comércio de animais vivos, embora promissor, exige uma operação logística complexa. Para chegar ao país de destino, o animal geralmente precisa enfrentar uma viagem de milhares de quilômetros, que vai da fazenda fornecedora ao porto de origem, passando pelo transporte marítimo e por terra, até o frigorífico ou a fazenda de destino. Muitas vezes ainda se exige um período de quarentena no mercado de destino, como nos mostra a reportagem  de Thaise Teixeira publicada no jornal Correio do Povo.

É no quilômetro 20,5 da BR 293, em Capão do Leão, a aproximadamente 20 quilômetros de Pelotas, na zona Sul do Rio Grande do Sul, que a Sentinela Livestock European Breeds prepara mais uma remessa de gado em pé para o exterior. A carga encomendada pelo Egito é de terneiros, que serão terminados e abatidos do outro lado do oceano. A maior parte dela já foi descarregada na sede da Agropecuária Astúrias, parceira da exportadora na preparação dos animais, mas à medida que as compras são realizadas, os currais vão sendo gradativamente preenchidos.

À primeira vista, o entra e sai de caminhões na sede da Astúrias remete ao tradicional processo de engorda de gado em confinamento. Mas, na verdade, se trata de um Estabelecimento Pré-Embarque (EPE), local habilitado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para isolar e preparar as cargas vivas, conforme determina a Instrução Normativa 46/2018. Os caminhões, fretados pela própria Sentinela, chegam de todos os cantos do Rio Grande do Sul. “O corretor seleciona e pesa os animais, paga o criador e os embarca nos caminhões. Tudo é feito no mesmo dia. Pagamos os lotes à vista e as cargas são liberadas. A partir desse momento, elas passam a estar sob nossa responsabilidade” relata o veterinário e Responsável Técnico (RT) da EPE, Eduardo Lund.

Carregados com raças europeias, britânicas e suas cruzas, como Charlolês, Angus, Hereford, Brangus e Braford, os caminhões chegam lotados de machos – todos inteiros –, conforme as condições estabelecidas no Certificado Zoossanitário Internacional (CZI), documento celebrado entre as autoridades brasileiras e o país importador.

Após desembarcar, os animais de até 12 meses vão para uma área de descanso, adaptada e preparada para recebê-los de acordo com as disposições técnicas e legais exigidas para uma EPE, com água, sombra e comida. Depois de serem identificados com chips eletrônicos, são automaticamente inseridos no sistema de gestão da Sentinela, desenvolvido e programado “in house”, ou seja, pela própria empresa, com objetivo de atender demandas específicas da atividade. Em seguida, são apartados de modo a se evitar a competição no cocho. A formação dos lotes também obedece critérios de raça, idade e peso.

Ser desmamado não é condição ao embarque, mas é uma condição desejável para que não percam peso durante a quarentena obrigatória, na qual são alimentados única e exclusivamente com silagem e ração. Os terneiros não podem chegar à Asturias muito leves, já que precisam estar com a régua entre 260 quilos e 280 quilos na hora do embarque. “Se eu levo animais de 260 quilos, caberá mais no navio. Quanto mais pesados eles são, menos cabem”, salienta Lund.

Volume de animais embarcados até maio é mais do que a metade do exportado pelo Estado em 2020, ano inicial da pandemia, quando foram comercializados para o exterior 115 mil bovinos vivos, segundo dados da Secretaria de Agricultura | Foto: Fernando Dias / Seapi / Divulgação

A capacidade estática do confinamento é de 10 mil animais. O abastecimento diário dos cochos e a estrutura física do confinamento fica por conta da equipe da Astúrias. Já a manutenção das instalações, a aquisição e a distribuição da alimentação ao gado, o controle diário do consumo e a sanidade animal estão sob o guarda-chuva da Sentinela. “Nosso pessoal monitora se há animais doentes, trata, faz as vacinas e testes. E ainda contamos com uma equipe terceirizada, habilitada pelo Mapa, para fazer os exames de saúde obrigatórios”, acrescenta Lund.

Com apoio da tecnologia tanto de gestão como de maquinário, a conferência de cocho diária é realizada na média de um homem para 1 mil bois. “A gente usa uma quantidade individual de matéria seca em torno de 2,5% do peso corporal por animal/dia. Se um terneiro de 200 quilos come 5 quilos por dia, uma carga de 5 mil animais demanda 25 toneladas de alimento por dia”, calcula o veterinário. A tecnologia também permite que a quarentena possa ser acompanhada pelos importadores, em tempo real, via aplicativo.

A exportadora ainda precisa obedecer a parâmetros exigidos pela legislação ambiental. “Temos uma empresa que faz toda a logística reversa, recolhe qualquer tipo de frasco e os incinera, conforme solicitado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam)”, exemplifica Lund. A Fepam, segundo ele, também audita, periodicamente, o controle de resíduos do confinamento ao meio ambiente. “Se não estiver tudo certo, não podemos exportar. Obedecemos tudo o que diz a lei para que os animais sejam tratados de acordo com os preceitos de bem-estar animal. E somos fiscalizados para isso”, declara Lund.

Fiscalização agropecuária tem papel chave

Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação controla a emissão das GTAs e acompanha os exames sanitários exigidos pelos países que estão importando o gado vivo

A solicitação da Sentinela Livestock European Breeds ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para iniciar a quarentena dos animais já em confinamento se dará somente após a confirmação da data de ancoragem do navio que transportará a carga a partir do Porto de Rio Grande. Mas a autorização oficial para o início do isolamento de 21 dias, previsto no Certificado Zoossanitário Internacional (CZI) celebrado pelo Brasil e o Egito, virá dos técnicos da Inspetoria Veterinária e Zootécnica (IVZ) da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) de Pelotas.

“Somos acionados desde o início do processo, tanto para análise do local como para o envio das Guias de Trânsito Animal (GTAs) dos animais que serão exportados. Realizamos também o acompanhamento de todos os exames sanitários exigidos por cada país”, detalha o diretor-adjunto do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA) da Seapi, Francisco Lopes. Com os requisitos legais e técnicos preconizados na Instrução Normativa Nº 46 do Mapa plenamente atendidos, os fiscais estaduais bloqueiam a unidade, que somente será reaberta ao término do período previsto.

A Seapi é também a responsável pela liberação dos carregamentos para embarque no Porto de Rio Grande. Além de emitir novas GTAs, os técnicos precisam garantir o cumprimento das normas sanitárias exigidas pelo país comprador. Os exemplares que irão para o Egito ainda em julho precisam ser atestados como livres de febre aftosa, da doença da língua azul, da doença da vaca louca, de tuberculose, da brucelose e e da Diarreia Viral Bovina (BVD). “Quando eles (egípcios) vêm comprar aqui, é porque buscam uma carne de melhor qualidade, já que, ao Norte do país, há grande oferta de zebuínos”, pontua o chefe do Estabelecimento Pré-Embarque (EPE), Eduardo Lund, lembrando que a responsabilidade em cumprir todos esses requisitos é da Sentinela.

Além da peneira da Seapi, para seguir para o terminal portuário de Rio Grande, os terneiros também passam pelo crivo de um veterinário especialmente enviado pelo país importador para acompanhar in loco a seleção dos lotes. Normalmente, as cargas demoram de 20 a 25 dias para chegar ao Egito e à Turquia, países responsáveis por 90% da compra de gado vivo do Estado.

Estabelecimentos Pré-Embarque (EPEs) 

Conforme a IN 46, para ser aprovado, o EPE deve se localizar em um lugar de fácil acesso ao transporte e situar-se, em relação ao local de embarque, a aproximadamente 8 (oito) horas de viagem em transporte rodoviário de animais. Precisa também fornecer alimentação e água limpa, de boa qualidade e em quantidade adequada aos bovinos. Os currais devem ser higienizados e não podem gerar estresse nos animais, devendo ter bretes e troncos de contenção adequados.

É obrigatório também o uso de bebedouros, tanto nos currais de espera (recepção) como no manejo diário e nas operações de pré-embarque. As estruturas para disposição de água e de comida devem ser de fácil limpeza e minimizar a contaminação, com vazão suficiente para manter, ao menos, a metade de sua capacidade de armazenagem. Os cochos devem ter drenagem e ventilação, devendo ser dispostos de forma a permitir que, ao menos, metade do lote se alimente simultaneamente.

Nos EPEs, o armazenamento dos alimentos para os animais ocorre em um local protegido de possíveis contaminações externas e o acesso de veículos e pessoas é controlado, com desinfecção prévia. Os estabelecimentos possuem, também, um responsável técnico (RT), um piquete de enfermaria e cercas em bom estado de conservação. Precisam dispor de mão de obra qualificada de acordo com os protocolos de bem-estar animal, isolar a água da superfície e os efluentes para fora das áreas de manejo e de armazenamento de alimentos.

Todos os animais confinados na EPE devem ser contemplados com sombreamento, podendo este ser natural ou artificial. Segundo IN Nº46, a estrutura deve ter dimensão entre 4 e 5 metros quadrados por animal, com altura mínima de pé direito entre 3,5 e 4 metros para que a circulação de ar seja eficiente. Não há exigência quanto ao material utilizado para prover sombra, mas a orientação é que os aparadores de sol sejam instalados no sentido norte-sul para evitar a formação de barro.

Densidade para instalações de currais de confinamento em EPEs 

1. Dimensão linear mínima de cocho: 

  • 30cm/bovino/bubalino, para animais acima de 24 meses; 

  • 20cm/bovinos/bubalinos, para animais abaixo de 24 meses; 

  • 18cm/ovinos e caprinos. 

2. Área mínima de piquete: 

  • 20m2/bovino/bubalino, para animais acima de 24 meses;

  • 15m2/bovinos/bubalinos, para animais de 12 a 24 meses; 

  • 10m2/bovinos/bubalinos, para animais com menos de 12 meses;

  • 5m2/ovinos e caprinos. 

3. Dimensão mínima linear dos bebedouros: 

  • 03 (três) cm/bovino/bubalino, para animais acima de 24 meses;

  • 02 (dois) cm/bovinos/bubalinos, para animais com menos de 24 meses;

  • 02 (dois) cm/ovinos e caprinos.

Fonte: Anexo 1 da IN 46/2018 – Mapa 

Embarcações passam por vigilância federal

Auditores do Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) inspecionam as instalações dos navios, a logística de embarque e o acesso dos terneiros aos compartimentos de transporte, num processo que, no mínimo, leva cinco dias

Da mesma forma que o Egito enviará um veterinário para acompanhar a seleção dos terneiros da Sentinela, um veterinário da exportadora também terá de acompanhar a viagem ao país e assistir os animais no trajeto. Ele também tem a incumbência de fazer um diário de bordo dos dias em alto mar e enviá-lo ao Ministério da Agricultura (Mapa) e à exportadora, relatando todas as ocorrências vivenciadas no período.

O trabalho de inspeção às condições e instalações da embarcação, a logística do embarque e a chancela para que cada terneiro acesse seu espaço nos navio está sob responsabilidade dos auditores fiscais federais agropecuários do Ministério da Agricultura (Mapa). “Estamos quebrando a cabeça para conseguir montar as equipes. Tem de vir gente de outros estados”, relata a delegada do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais no Rio Grande do Sul (Anffa Sindical), Soraya Marredo.

A delegada do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais no Rio Grande do Sul (Anffa Sindical), Soraya Marredo, explica que a composição das equipes do Vigiagro no porto variam, mas, na média, contam com três auditores para autorizar o embarque de cada 20 mil cabeças de gado | Foto: Fernando Dias / Seapi / Divulgação

Apaixonada pelo que faz, Soraya é lotada no Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) e, quando chega o momento de autorizar os animais brasileiros a subir a rampa dos navios com destino a outro país, ela não tem mais dia e noite na rotina. “O interesse é de todos mas responsabilidade é nossa”, comenta.

A liberação do carregamento se dá em torno de cinco dias, desde que mantidas todas as condições esperadas no deslocamento das cargas ao porto e na execução de todas as etapas de liberação dos animais. O prazo varia conforme a distância dos Estabelecimentos Pré-Embarque (EPEs) do embarcadouro ou eventos que possam ocorrer durante o processo, como o embarque dos terneiros na propriedade, o trajeto terrestre ao porto, e até problemas técnicos e burocráticos. “Pode acontecer, por exemplo, de o sistema da balança quebrar e de os animais não poderem ser pesados”, cita.

O número de auditores fiscais federais agropecuários requeridos para as atividades no porto varia. Conforme Soraya, atualmente – e dada a disponibilidade de profissionais concursados –, está na casa de três auditores para cada 20 mil cabeças de gado. “Não estamos mais embarcando final de semana porque existem as rotinas do Vigiagro e as exportações de bovinos não são as únicas atividades que temos. Existe importação e exportação de cargas vegetais e animais em todas as fronteiras”, argumenta.

Volume de animais embarcados até maio é mais do que a metade do exportado pelo Estado em 2020, ano inicial da pandemia, quando foram comercializados para o exterior 115 mil bovinos vivos, segundo dados da Secretaria de Agricultura | Foto: Fernando Dias / Seapi / Divulgação

Conforme a IN 46/2018 do Mapa, que traz o Regulamento Técnico para Exportação de Bovinos, Bubalinos, Ovinos e Caprinos Vivos destinados Abate ou à Reprodução, as embarcações devem estar limpas e desinfetadas antes do embarque dos animais. Todos os locais pelos quais eles transitarão ou nos quais ficarão instalados não podem lhes gerar dano físico ou causar-lhes adoecimento.

Os equipamentos e instalações disponibilizados pelo navio devem ser adequados à lotação, idade, espécie e estágio reprodutivo dos animais. A importadora também precisa providenciar espaços em cada deck ou compartimento para enfermarias que devem corresponder aproximadamente a 1% da capacidade de alojamento, além de dispor de planos de contingência. O revestimento das áreas onde serão alojados os animais pode ser feito com palha e serragem. Os materiais devem ser apresentados com disponibilidade, compressibilidade e mão de obra disponível e preparada para manejá-los.

Conforme o diretor-adjunto do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA) da Seapi, Francisco Lopes, até 31 de maio, o Rio Grande do Sul exportou 77.791 bovinos em pé, selecionados entre 103.612 que entraram em quarentena. A soma é mais da metade alcançada durante todo o pandêmico ano de 2020, quando o RS embarcou 115 mil bovinos ao exterior. O saldo só perdeu para 2019, quando as remessas totalizaram 136 mil cabeças. “Em 2022, enviamos 56.629 animais para quarentena e exportamos 44.585. Em 2021, foram enviados somente 2,6 mil”, complementa Lopes.

Fonte: Correio do Povo /  Thaise Teixeira