Venezuela, um país petroleiro sem combustível

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                    Filas de carros em um posto de gasolina de Caracas, em novembro. M. BELLO Reuters

A Venezuela, membro fundador da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e tradicional potência petroleira do hemisfério ocidental, sofre de um problema crônico cuja própria formulação constitui uma ironia: a escassez de combustível. A crise, que já ocorreu em outras ocasiões, atinge de forma intermitente Caracas, bem como outras partes do país, sobretudo na região ocidental: os Estados de Táchira e Zulia, fronteiriços com a Colômbia.

Há três dias, consumidores enfurecidos bloquearam as ruas e organizaram protestos pela falta de combustível na cidade andina de San Cristóbal, a meia hora da fronteira com a Colômbia e a pouco mais de 800 quilômetros de Caracas. Os motoristas fizeram filas de até oito horas para poder abastecer seus veículos. Outros denunciaram ter ficado até dois meses sem fornecimento de gás. Episódios muito semelhantes foram vividos nas cidades de Mérida, Valera e Maracaibo –a segunda cidade do país, capital do Estado de Zulia, entidade federal que é famosa por sua vocação petroleira. Barquisimeto, a quarta cidade em importância na Venezuela, está com a maioria de seus postos vazios: filas de até 10 horas e serviço parcial de abastecimento, que ocorre à noite e deixa para o dia seguinte os que não puderam chegar à bomba.

A produção anual do país beira os dois milhões de barris diários, pouco menos da metade do que produzia nos anos noventa. A progressiva deterioração da PDVSA, a outrora poderosíssima estatal petrolífera, é a causa apontada pelos especialistas para a caótica situação atual. Os problemas com o abastecimento de gasolina começaram a se agravar, sobretudo, depois da tragédia industrial de Amuay, em agosto de 2012, uma explosão no maior complexo de refino do país, que deixou 41 mortos, 150 feridos e 500 residências afetadas. A maioria parlamentar que o chavismo detinha na época bloqueou qualquer iniciativa de auditoria ou interpelação na Assembleia Nacional.

Alguns dos casos de corrupção mais notórios e custosos para os cofres do país sul-americano nesse tempo tiveram a PDVSA como epicentro. A Comissão de Controladoria da Assembleia Nacional (controle de contas), presidida por Freddy Guevara, do oposicionista Vontade Popular –hoje asilado na Embaixada do Chile em Caracas–, publicou no ano passado um volumoso relatório em que denuncia a existência de perdas milionárias em casos de sobrepreço, subornos, triangulação e legitimação de capitais. Aponta expressamente a responsabilidade política e administrativa de Rafael Ramírez, o todo-poderoso ministro de Energia e Petróleo durante o auge do chavismo.

Em um processo conduzido pelo procurador-geral, Tarek William Saab, o Governo bolivariano desencadeou um duro expurgo político contra Ramírez e outros dirigentes e gerentes da PDVSA, apoiado nas mesmas acusações. Eulogio del Pino, ex-ministro de Energia e Petróleo, e Nelson Martínez, ex-presidente da empresa, com 65 gerentes do alto escalão, foram presos e levados a julgamentos sob a acusação de corrupção. Martínez também foi presidente da Citgo, a filial estadunidense da PDVSA. À Citgo pertence também boa parte da gerência que foi levada à prisão.

Depois dos protestos dos últimos dias, ao contrário do que aconteceu em outras ocasiões, a PDVSA emitiu um comunicado no qual reconhecia as falhas e pedia desculpas à população, acrescentando que as deficiências se deviam “à rejeição de nossos pagamentos do serviço de cabotagem pelas sanções do Governo estadunidense”. Os problemas da PDVSA sobrepujaram o âmbito cotidiano: uma das causas citadas com frequência cada vez maior pelos entendidos sobre as razões da recente saída de várias companhias aéreas internacionais do país tem relação com as dificuldades para repor combustível.

Fonte: EL PAÍS