Um outro olhar

0
498
IMPRIMIR
JOÃO LUIZ SAMPAIO/ AMSTERDÃ – O Estado de S.Paulo

Visitar uma cidade é sempre confrontar nosso imaginário com a realidade – mas há alguns locais em que a briga entre o real e a fantasia parece não deixar sobreviventes. Difícil não pensar nisso durante uma visita a Amsterdã. A capital holandesa derruba todo e qualquer clichê ou imagem preconcebida que se possa fazer dela.

E, sim, isso é muito bom.

Um passeio idílico de bicicleta por parques ou ruas centenárias? Só se você ignorar o caos de ciclistas que estão em todo o lugar – e sempre no seu caminho (ou seria o contrário?). Caminhadas à beira dos canais? Depende de a chuva dar uma trégua – se bem que, com água caindo, as pessoas buscam abrigo: e fica mais fácil de caminhar pelas ruas do centro histórico. Uma volta pelas escuras e proibidas ruas do Red Light District, então? Sim, mas um detalhe: elas são claras, nada discretas – e estão repletas de jovens e barulhentos turistas e suas muitas garrafinhas de cerveja.

Então, por um minuto, você deixa de lado suas expectativas. E a cidade começa a ganhar vida e a formar um novo imaginário. Uma primeira parada no Amsterdam Museum ajuda a entender a formação da capital holandesa. A partir do centro, a cidade foi crescendo ao longo dos séculos em círculos demarcados pela presença dos canais. É como uma cebola, com suas diferentes camadas. E, a cada uma delas, Amsterdã ganha novo significado, pautado por uma história que a coloca no centro de episódios marcantes, sejam as grandes navegações (lembre-se que os holandeses estiveram no Nordeste brasileiro), seja a Segunda Guerra, da qual a casa de Anne Frank oferece testemunho contundente.

Se você quer canais, vá a Veneza. Museus? Paris. História? Londres, Roma. Agora, quer tudo isso junto, em um só lugar? Vá a Amsterdã. É essa a piada na boca dos profissionais de turismo na Holanda. Mas, brincadeiras à parte, é justamente ao olhar para a sua própria história que a capital holandesa espera atrair um número maior de turistas. E, nesse processo, a arte tem desenvolvido papel importante. A orquestra da cidade, por exemplo, está completando 150 anos – e, assumindo sua vocação de embaixadora cultural, montou uma turnê que a levou a todos os continentes ao longo deste ano (eles estiveram em São Paulo e no Rio no começo de junho).