Queda de avião militar chileno revela risco de cruzar rota da Antártica

0
214
IMPRIMIR
Vista do trem de pouso do avião C-130 Hercules danificado quando ele estava na Antártica com 38 pessoas a bordo, lançado em 12 de dezembro de 2019 em Punta Arenas, Chile, para a Força Aérea naquele país – Fuerza Aérea de Chile/AFP

A poucas semanas de se aposentar, o oficial não-comissionado da Força Aérea do Chile, Santiago Velásquez, realizaria seu sonho de viajar para a Antártica, mas a queda do avião militar C-130 interrompeu seus planos e revelou os riscos de atravessar uma das rotas mais perigosas do mundo.

Para chegar ao continente branco do Chile, é preciso atravessar a Passagem de Drake, mais ao sul das rotas de comunicação entre o Pacífico e o Oceano Atlântico, com uma das marés mais tempestuosas do planeta, e que se tornaram um cemitério de mais de 10.000 marinheiros e 800 navios desde o século XVII.

Com 35 anos de serviço dentro da base aérea de Chabunco, em Punta Arenas, a cidade conhecida como “porta de entrada para a Antártica”, Velásquez pediu para conhecer o segundo menor continente como último desejo antes de deixar a FACH.

“Sempre foi um sonho para ele conhecer a Antártica… Ele sempre expressou esse desejo, era algo que queria realizar em algum momento de sua vida”, disse à AFP José Velásquez, irmão de Santiago.

Com 54 anos e com a data de aposentadoria marcada para março, ele recebeu com entusiasmo o convite para embarcar no avião Hercules C-130 que partiu para a Antártica em 9 de dezembro a partir da base de Chabunco, com 38 passageiros a bordo.Na metade do caminho, afundou na Passagem de Drake.

“Santiago não estava programado para partir na segunda-feira. Ele me disse que viajaria na terça-feira, mas aconteceu que a casualidade da vida fez que esse dia estivesse ocupado. O destino o levou, o tirou de nós”, lamenta José.

A necessidade de risco

A Passagem de Drake, batizada em homenagem a Francis Drake, um navegador inglês que o atravessou em 1578, também é conhecida como o Mar de Hoces, aludindo ao navegador espanhol Francisco de Hoces que chegou a essa área no século XVI.

Com uma extensão de 800 km, suas condições climáticas são extremas, com ventos superiores a 100 km/h, ondas de até 10 metros de altura e profundidade do oceano de quatro quilômetros, o que exige grande habilidade dos pilotos de aeronaves e capitães de barcos para atravessá-la.

“O risco e a necessidade de ir além sempre foram naturais para o ser humano. No caso da Antártica, primeiro foi o desejo de conquistar, depois os recursos (…) e agora o grande incentivo para continuar voando e cruzando o mar de Drake é a ciência”, explica Marcelo Mayorga, professor de de história da Universidade de Magalhães.

Os limites do fim do mundo e a própria Passagem de Drake fazem parte do imaginário coletivo, graças a histórias míticas que são contadas sobre as mortes de marinheiros que passam por lugares como “Bahía Decepción”, “Golfo de Penas” ou “Puerto del Hambre”, explica o professor de literatura Oscar Barrientos à AFP.

 

“Toda a geografia complexa da região de Magalhães, como Cabo Horn, Mar de Drake ou Estreito de Magalhães, sugere uma certa natureza catastrófica que pode ser considerada um cemitério de navios”, acrescenta Barrientos.

 Continente multicultural

Aqueles que passam pelo furioso Mar de Drake e chegam à Antártica destacam o multiculturalismo que existe nas 65 bases de 30 países que se estabeleceram neste lugar inóspito, onde no inverno vivem cerca de 1.000 pessoas, e no verão cerca de 5.000.

“Você fica surpreso com a forma como a base russa e a base chilena estão juntas e se parecem com uma única cidade. Os países trazem suas próprias culturas para suas bases, algumas muito militares e outras dedicadas à ciência”, afirma Rafael Cheuquelaf, jornalista e músico, que em 12 anos viajou sete vezes, de avião e navio, entre Punta Arenas e Antártica.

Durante o século XX, países como Estados Unidos, Reino Unido, Chile, Argentina, Brasil e Japão tentaram impor sua soberania na Antártida instalando grandes bases, e também realizaram importantes expedições ao continente. No entanto, em 1961, 12 países – incluindo os Estados Unidos e a ex-União Soviética – assinaram o Tratado da Antártica, que reconhecia este continente como um território de interesse para toda a humanidade e que só deveria ser usado para fins pacíficos.