O televisor da Copa do Mundo pode se tornar o lixo eletrônico de amanhã

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O lixo eletrônico gera anualmente, em Gana, cerca de US$ 268 milhões. Em compensação, provoca um sério problema ambiental, pela forma de descarte sem reflexão sobre o impacto na vida das comunidades. Abaixo, o registro de um dos depósitos de computadores e televisores / Rede de Ação da Basileia

Os brasileiros querem mesmo assistir aos jogos da Copa do Mundo em uma televisão nova: o volume de vendas de TVs subiu 42,29% no Brasil no primeiro trimestre de 2018, com relação ao mesmo período do ano passado. No total, foram 3,6 milhões de unidades vendidas no primeiro trimestre, segundo os dados divulgados pela Eletros, que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos no país

A pouco tempo dos jogos aparelhos cada vez maiores e mais modernos ganham destaque nas lojas, o que enche os olhos tanto dos consumidores quanto da indústria. Mas essa febre de consumo pré-Copa pode, em alguns anos, tornar-se prejudicial para o meio ambiente e a população. Ou não, depende de nós. Atualmente, o Brasil produz 6,5kg/ano de lixo eletrônico por habitante.

Com isso, a tendência é, nos próximos anos, esses aparelhos serem descartados de qualquer jeito, em qualquer lugar, o que pode ser prejudicial ao meio ambiente e aos catadores de lixo.

Quando o descarte e a reciclagem são feitos corretamente, dá para extrair não apenas esses elementos químicos (que têm valor comercial mais alto), como também componentes, a exemplo de vidro e metais, que podem ser reutilizados pela indústria.

Mas será se o Brasil recebe lixo eletrônico? Somos um grande produtor?  Para os especialistas, o país estaria fora do circuito global do lixo eletrônico, não tanto pela qualidade do seu controle ambiental, mas simplesmente porque está longe dos países ricos. Esse lixo é típico de países avançados. No Brasil, computadores velhos não são jogados fora, passam para outras pessoas com menor poder aquisitivo.

O diretor executivo da Rede de Ação da Basileia, cujo nome é uma referência à convenção da Basileia, um acordo internacional quanto ao comércio e tratamento de resíduos perigosos, entre os quais produtos eletrônicos descartados, Jim Puckett, diz no livro de minha autoria Toma que o Lixo é Teu, que o lixo eletrônico viria na forma de doação de computadores velhos para pobres, e instituições. Seria uma nova forma de despejar lixo tóxico pela caridade. Um lixo travaestido de boas intenções.

Em Gana, a concentração de chumbo no solo chega a ser mil vezes superior ao nível tolerado. Trabalhadores do país africano ficam expostos ao risco de substâncias como cádmio e mercúrio, que provocam queimaduras, problemas respiratórios e até câncer / Rede de Ação da Basileia

Segundo Puckett levar lixo eletrônico para o Brasil fica mais caro do que levar para a África, e a economia brasileira não é grande produtora de lixo eletrônico. Segundo ele, operadores inescrupulosos ganham muito dinheiro não dando o destino correto ao lixo. Eles querem empurrar estes custos para o mundo em desenvolvimento. Não é só lixo doméstico, mas lixo eletrônico, temos uma epidemia, um tsunami de lixo eletrônico partindo da Europa, da América do Norte, inundando a África, a América Latina e a Ásia. É um problema imenso”, relata Puckett.

É em Accra, capital de Gana, onde acumulam-se os detritos tecnológicos do mundo rico. É para lá que vai a maior parte desse tipo de lixo produzido pelos países da Europa, por exemplo. São eles que despejam grande parte das 215 mil toneladas que lotam o espaço. Toneladas de lixo chegam diariamente em caminhões vindos da região portuária da cidade e transformam o local em um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta. Mais de 30 mil africanos de diferentes idades, crianças incluídas, ocupam-se de duas atividades, do conserto e venda de eletrônicos que ainda podem ser recuperados ou da extração de metais valiosos do entulho, entre eles prata, aço e cobre.

Expostos a diversos tipos de riscos e doenças associadas ao lixo eletroeletrônico, os trabalhadores executam as atividades desprovidos de equipamentos de proteção, e muitos trabalham sem camisa e descalços. O maior risco vem da inalação de substâncias tóxicas que derivam da queima de fios de plástico, técnica utilizada para extrair o minério de cobre em seu interior. É o primeiro mundo livrando-se do seu lixo e empurrando para os mercados abertos do subdesenvolvimento.

Em resumo: a sociedade de consumo não sabe o que fazer com as toneladas de lixo que produz. Há os que defendem que cada país deva armazenar o próprio lixo e não exportá-lo. Outros alegam que em uma economia globalizada é inevitável a livre circulação de mercadorias inclusive o lixo e que esse comercio deva ser regulamentado, mas não proibido.

Na verdade como em qualquer negócio que envolva muito dinheiro o que se deve combater é o comércio ilegal, as grandes máfias e não transformar os países pobres em um lixão do mundo rico.

DINIZ JÚNIOR, JORNALISTA E AUTOR DO LIVRO “ TOMA QUE O LIXO É TEU”