“O consenso científico é que a Antártica está derretendo cada vez mais rápido”

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Filhotes de pinguim imperador na Antártica. O futuro do continente é decisivo para eles e para nós também (Foto: Hannes Grobe/AW)
Filhotes de pinguim imperador na Antártica. O futuro do continente é decisivo para eles e para nós também (Foto: Hannes Grobe/AW)

por ALEXANDRE MANSUR / blogdoplaneta- Revista Época

O comportamento da Antártica é o grande mistério do aquecimento global. A forma como o continente gelado reage ao aquecimento global determinará as grandes consequências das mudanças climáticas em todo o planeta. Parte do continente, a Antártica Ocidental, está claramente esquentando e derretendo, contribuindo para o aumento do nível do mar. Mas o maior pedaço do continente, a Antártica Oriental, tem uma dinâmica mais complexa. A maioria dos estudos mostra que a Antártica vem perdendo massa. Mas um estudo recente, coordenado por Jay Zwally, glaciologista da Nasa, surpreendeu. Ele mostra que o acúmulo de neve no continente que começou no fim da Era Glacial há 10 mil anos ainda acrescenta massa à Antártica e compensaria as perdas pelo aquecimento atual. O novo estudo causou furor. Será que ele desmente as pesquisas anteriores? O temor de um derretimento da Antártica seria alarmismo? Quem responde é o pesquisador americano Luke Trusel, do Instituto Oceanográfico Woods Hole em Massachusetts, nos Estados Unidos. Ele fez um levantamento comparando os principais estudos sobre a variação de massa da Antártica. E diz que o estudo da Nasa é importante, mas permanece uma exceção. “O consenso científico é que a Antártica está perdendo massa, e cada vez mais rápido”, diz.

ÉPOCA: É possível saber se a Antártica inteira está derretendo?

Luke Trusel: Os cientistas estão preocupados com as transformações da massa total da Antártica porque ela tem tanto gelo que mesmo pequenas mudanças podem ter grande impacto no nível do mar do planeta. Em particular, os cientistas na Antártica estão trabalhando para determinar se o continente está perdendo massa pelo derretimento ou se está ganhando massa pelo acúmulo de neve. E quão grandes são esses números. Nós temos muitas observações de satélites que mostram que a Antártica está derretendo nas margens em contato com o oceano. Isso ocorre em grandes áreas tanto da Antártica Oriental como Ocidental, assim como na Península Antártica. A questão que os pesquisadores querem esclarecer é quanta queda de neve está ocorrendo, e se isso pode compensar o derretimento nas margens para saber qual é o resultado total para a Antártica. Quase todos os estudos recentes concluem que a Antártica como um todo está perdendo massa, e logo contribuindo para a elevação do nível dos mares.

ÉPOCA: Por que é tão difícil ter uma resposta objetiva? Por que diferentes estudos com metodologias distintas dão resultados díspares?

Trusel: A Antártica é um continente muito grande. Quase uma vez e meia o tamanho do Brasil. Mesmo mudanças pequenas devem ser consideradas, como um centímetro de neve acumulada em todo o continente ou taxas variadas de derretimento nas margens. Sem muitas observações no local, precisamos recorrer a vários satélites para medir as mudanças na Antártica. Cada um desses satélites tem pontos fortes e fracos específicos. Para calcular a massa da Antártica com cada um deles é preciso usar alguns pressupostos e uma metodologia diferente. O período de tempo analisado, os pressupostos de quão rápido a neve vira gelo, e outras variáveis podem levar a números ligeiramente diferentes para as tendências de variação da massa da Antártica.

ÉPOCA: A Antártica tem duas partes. A Ocidental é a menor delas e aparentemente a mais afetada pelo aquecimento global. Podemos dizer com certeza que a Antártica Ocidental está perdendo massa?

Trusel: Sim. Todos os estudos mostram que a Antártica Ocidental está perdendo massa. Mesmo o estudo recente (de Zwally) que questiona as mudanças na massa da Antártica Oriental. Além disso, a perda de massa parece estar acelerando. E há uma preocupação significativa que a Antártica Ocidental seja inerentemente instável e tenha entrado num estado de retração irreversível.

ÉPOCA: Podemos atribuir essa tendência de retração na Antártica Ocidental às mudanças climáticas?

Trusel: Boa parte das perdas de massa da Antártica vêm do derretimento de gelo nas bordas do continente, em contato com a água do oceano. Enquanto a comunidade científica ainda está trabalhando para identificar os mecanismos responsáveis por essa fase de retração da Antártica Ocidental, sabemos que os padrões de vento relacionados a mudanças nas correntes marinhas são um fator importante. O aquecimento nos trópicos (especialmente no oceano Pacífico) é provavelmente o principal responsável pelas mudanças nos ventos na Antártica. E a mudanças nas correntes marinhas que levam ao derretimento do gelo na Antártica Ocidental. Na medida que a atmosfera e os oceanos esquentam por causa das emissões humanas de gases de efeito estufa, as taxas de derretimento devem aumentar.

ÉPOCA:  Por que a Antártica Ocidental e a Oriental se comportam de forma tão diferente?

Trusel: Muitas diferenças têm origem na geografia. A Antártica Ocidental é particularmente dinâmica. Ele responde mais rapidamente às mudanças climáticas. Isso porque a maior parte das plataformas de gelo estão abaixo do nível do mar. São as plataformas marinhas. Na medida que você anda para o interior, a base de rocha sob o gelo fica mais e mais profunda. Logo, a preocupação é que, uma vez que a retração comece, possa ser irreversível. Isso porque na medida que o gelo derrete, a superfície exposta está em contato com águas cada vez mais profundas do mar. Sabemos pela evidência geológica que uma retração em larga escala da Antártica Ocidental aconteceu em periodos quentes do passado, quando as condições não estavam de todo diferentes do que temos hoje ou do que se espera para o próximo século.

ÉPOCA: E a Antártica Oriental?

Trusel: A Antártica Oriental tem uma plataforma de gelo muito maior, muito mais alta. E boa parte da rocha que a sustenta está acima do nível do mar. Enquanto há certas porções importantes da Antártica Oriental que ficam em rocha abaixo do nível do mar como na Antártica Ocidental, a maior parte do gelo da Antártica Oriental está numa situação mais estável. A grande diferença é que a Antártica Oriental como um todo pode ser menos sensível às mudanças climáticas.

O gráfico acima reúne os resultados de 13 estudos independentes sobre a variação da massa da Antártica. Cada cor representa um estudo. Apenas um, o de Jay Zwally, mostra ganho de massa de gelo (Foto: Luke Trusel)O gráfico foi feito por Luke Trusel. Ele reúne os resultados de 13 estudos independentes sobre a variação da massa da Antártica. Cada cor representa um estudo. A linha vertical mostra perda ou ganho de massa em gigatoneladas por ano. A linha horizontal é o horizonte de tempo de 1990 a 2015. Dos estudos reunidos aqui, apenas um, o de Jay Zwally, mostra ganho de massa de gelo.