Morte feita em garagem

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Com as guerras no Iraque e Afeganistão, uma nova sigla entrou no vocabulário americano: IED – improvised explosive device, ou bomba de fabricação caseira. Pequenas, feitas artesanalmente, as IEDs permitiram aos agressores atacar soldados americanos em praticamente qualquer lugar, a qualquer momento e sem muito gasto. Elas se tornaram um suplício para o Exército dos EUA.

A exemplo dos famigerados estiletes de escritório usados pelos sequestradores dos aviões nos atentados de 11 de setembro de 2001, as bombas caseiras personificam o conceito de guerra assimétrica: combatentes sem recursos e militarmente frágeis podem semear o caos na nação mais rica, poderosa e militarmente capacitada já vista.

Como ocorre após qualquer ataque terrorista, no da Maratona de Boston surgiram imediatamente especulações sobre a identidade e os motivos dos que fabricaram as bombas empregadas para tirar a vida de 3 jovens e ferir outras 176 pessoas, no dia 15. No pior ataque registrado nos Estados Unidos depois do 11 de Setembro, os responsáveis usaram panelas de pressão com explosivos, pregos e outros materiais, a fim de matar e mutilar.

O “quem” e o “por que” importam muito menos, a longo prazo, do que o “como”: a introdução nos EUA do instrumento terrorista quase perfeito que cabe em mochilas.

Nessa semana o país viveu um clima que lembrou o dos atentados do 11 de Setembro.

Praticamente coincidindo com o ataque de Boston, cartas endereçadas ao presidente Barack Obama e a pelo menos um senador continham ricina, um veneno mortal. No dia 17, as autoridades prenderam um homem suspeito de postar essas cartas. Em princípio, parece não haver relação com o ocorrido em Boston. Similarmente, após os atentados do 11 de Setembro cartas contendo a bactéria antraz foram enviadas a autoridades americanas, desencadeando no país o pânico de uma epidemia.

Com mais de 23 mil corredores de 96 países (incluindo 112 brasileiros), a 117a. Maratona de Boston é um símbolo da cooperação internacional e da competição amistosa entre atletas. Realizada no Dia do Patriota, um feriado em Boston em comemoração do início da Revolução Americana, a maratona atrai meio milhão de espectadores e é uma mostra do orgulho de uma das grandes cidades do mundo.

O evento deveria brilhar como exemplo de unidade. Em vez disso, tornou-se um pesadelo ao vivo para Boston e uma lembrança terrível do terrorismo para o resto do país – na verdade, para o mundo.

Quando os investigadores descobriram fragmentos das bombas e divulgaram imagens deles para a mídia, os americanos ficaram sabendo rapidamente como é fabricada uma bomba caseira, graças às explicações dadas por autoridades ligadas à segurança e especialistas em terrorismo entrevistados por rádios e canais de TV.

Repentinamente, Iraque e Afeganistão entraram nas salas de estar das famílias americanas de uma maneira simples, mas intensa.

Da mesma maneira que, por longo tempo, os americanos se lembravam dos ataques do 11 de Setembro cada vez que um avião passava mais perto ou se deparavam com medidas de segurança sem precedentes nos aeroportos, a população agora vai se perguntar se alguém pôs uma bomba caseira num dos milhares de eventos esportivos realizados diariamente no país, de jogos de futebol infantis a partidas de times profissionais.

Ou, se alguém vai detonar uma bomba num shopping, centro de vida social para milhões de pessoas, especialmente jovens. Ou no vestíbulo de uma igreja, quando fiéis dentro expressam sua fé. Ou se alguém vai competir com os desumanos assassinos de crianças em pátios de escola na hora do recreio.

As possibilidades são quase infinitas.

Como ocorreu após os ataques de 11 de setembro de 2001, a segurança nos Estados Unidos poderá tomar novos rumos, com profundas implicações em gastos militares, no papel do FBI e no treinamento de policiais e paramédicos. E, mais importante, pais e professores terão de ensinar às crianças novos padrões de segurança em locais públicos.

Ironicamente, apesar do massacre ocorrido numa escola em Newtown, em dezembro, e das terríveis explosões na Maratona de Boston, o presidente Obama não conseguiu aprovar no Senado o projeto de lei que regulamenta o porte de armas de fogo.

Entretanto, mesmo um país armado até os dentes não consegue combater um furtivo terrorista armado com uma bomba caseira.

Como observou Edward Davis, chefe de polícia de Boston, horas antes da corrida agentes usaram cães farejadores para vasculhar duas vezes toda a área próxima à linha de chegada da maratona, onde as explosões ocorreram. Nada foi encontrado – talvez porque, como as primeiras evidências indicaram, o agressor trouxe as bombas na mochila depois da varredura realizada. No dia 18, o FBI apresentou um vídeo dos dois suspeitos andando naturalmente, cada um com uma mochila nas costas.

Então, quem está seguro nos EUA?

A lendária reputação do país como oásis de segurança foi duramente afetada com os atentados do 11 de Setembro.

Infelizmente, as bombas caseiras que explodiram na Maratona de Boston sugerem que os EUA talvez precisem tornar-se outro Israel, numa situação em que enfrentar o terror tornou-se rotina diária. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* KENNETH SERBIN É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO. FOI PRESIDENTE DA BRAZILIAN STUDIES ASSOCIATION DE 2006 A 2008