Hidrelétricas perdem protagonismo para o sol e o vento

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As usinas hídricas já chegaram a representar mais de 80% da capacidade do Brasil nos anos 80 e 90.

Após décadas de domínio na matriz energética do País, geração pela água fica para trás com forte expansão de usinas eólicas e fotovoltaicas; regulador trabalha para se adaptar à volatilidade de fornecimento do novo modelo

Após décadas de domínio, as hidrelétricas caminham para perder o protagonismo na matriz elétrica do Brasil. A acelerada expansão das usinas eólicas e da geração solar fotovoltaica começa a levar a mudanças importantes na operação do sistema elétrico, que deve se intensificar ao longo dos próximos anos.

Se antes o suprimento de energia era assegurado por reservatórios hídricos, com capacidade para suportar até anos de consumo, agora parte crescente da oferta está associada ao sol e ao vento, que variam fortemente durante o dia, segundo Luiz Eduardo Barata, diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Em meio a essa nova realidade, o órgão que gerencia o acionamento de usinas de geração e o uso de linhas de transmissão para garantir o suprimento elétrico do País tem buscado ferramentas para lidar com a incerteza associada à produção dessas novas fontes renováveis.

Previsão do tempo

O ONS desenvolveu um aplicativo que utiliza dados de previsões de vento fornecidos por instituições especializadas para projetar a geração das usinas eólicas, e um sistema semelhante está sendo criado para permitir previsões também sobre a produção dos parques solares, que começam a ganhar espaço no país.

“Temos percebido um aumento da volatilidade. É uma mudança enorme em relação aos tempos passados, quando a matriz era basicamente hidrotérmica”, disse Barata. Ele prevê que o sistema de projeções solares esteja operacional em dois anos. “A gente, com isso, já antecipadamente sabe mais ou menos que providências têm que ser tomadas no sistema, de forma a compensar (a variação da geração eólica e solar).”

Troca de matriz

Projeções do governo no mais recente Plano Decenal de Energia, com diretrizes para expansão do setor elétrico até 2027, apontam que hidrelétricas devem ver sua fatia na matriz cair para 51% no período, contra 64% em 2018, enquanto fontes alternativas, principalmente eólicas e solares, devem saltar para 28%, dos atuais 22%.

Mas dificuldades no licenciamento ambiental que ajudaram a reduzir o ritmo de construção de hidrelétricas ainda fizeram com que os novos empreendimentos da fonte fossem construídos principalmente sob o modelo “a fio d’água”, sem reservatórios, o que reduziu a chamada “capacidade de regularização” do sistema.

Só entre 2005 e 2017, a capacidade dos reservatórios hídricos de atender à demanda mesmo em cenário crítico de chuvas caiu de 27 meses para 16,4 meses, segundo cálculo do centro de estudos Acende Brasil.

“Esse é o tema mais importante, na minha opinião… é uma dádiva termos construídos todos esses reservatórios no passado, senão a entrada das eólicas seria quase impossível”, disse o professor Adilson de Oliveira, do Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE-UFRJ).

Nesse sentido, pode-se ainda dizer que o Brasil é privilegiado, uma vez que a maior parte dos países que hoje tentam mitigar a intermitência das novas fontes renováveis pode recorrer apenas a termelétricas a combustíveis fósseis, que além de mais poluentes são menos eficientes que a geração hídrica para a tarefa.

“Hoje, a hidrelétrica é a tecnologia mais efetiva a nível mundial para fazer esse ‘backup’, e o Brasil é campeão mundial em hidrelétricas”, disse Luiz Barroso, presidente da consultoria PSR.