Há algo de podre no mundo do futebol

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por / EL PAÍS

Faltam 40 dias para começar a Copa do Mundo no Brasil, e o jovem de 26 anos Paulo Ricardo Gomes, torcedor da equipe do Paraná acabou morto ao ser atingido pela privada arrancada de um dos banheiros do estádio Arruda em Recife, lançada por alguém ainda desconhecido do Santa Cruz contra os torcedores do Paraná.

Não era o futebol um substituto das guerras, um jogo entre rivais sem que fosse necessário que corresse o sangue? Que mecanismos atiçam essa violência nas grades dos estádios?

Desde que Shakespeare escreveu, há 413 anos, em Hamlet- uma obra de intrigas e corrupções – a frase que se faria célebre no mundo: “Algo cheira a podre na Dinamarca”, muitas outras coisas seguiram e seguem cheirando mal em muitos outros locais e instituições, inclusive em algumas das mais amadas pelas pessoas, como o jogo da bola que acorda paixões coletivas e que abraça todos, ricos e pobres, intelectuais e analfabetos.

O futebol, considerado hoje como uma arte plebeia, foi regulamentado, no entanto, pela primeira vez na prestigiosa Universidade britânica de Cambridge, e passou desde então por uma série de peripécias de todo tipo até a criação da primeira Fifa por quatro amigos em 1904 e que hoje conta com 120 membros, alguns dos quais foram envolvidos em escândalos de intrigas e corrupção como na obra de Shakespeare.

No Brasil, onde hoje o futebol chama a atenção do mundo, no passado, só os brancos podiam jogar em uma equipe oficial. O primeiro clube que começou a aceitar jogadores negros e mulatos foi o Vasco, no Rio de Janeiro e acabou sendo punido.

Seria impossível recolher em nível mundial os infinitos e variados sentimentos que a bola despertou na História moderna. De dito esporte interessaram-se quase todas as ciências porque se transformou em algo mais que um esporte.

Talvez por isso, também hoje, sem necessidade de nos remontar a Shakespeare, poderíamos dizer que “algo cheira a podre no futebol”, pois em vez de ser somente a pura paixão esportiva da qual chegou-se a dizer que era um “substitutivo das guerras” – onde perder e ganhar fazem parte só de um jogo -, entrou em uma espiral de decadência moral.

E não estou me referindo só à próxima Copa do Brasil, senão de modo geral a uma instituição da qual, através de seus poros começa a se sentir o odor de uma traição. E a dor é maior por parte dos torcedores já que trai sentimentos universais de prazer e diversão de um esporte que era visto como algo limpo, nobre, de todos, sem que o mercantilismo ou o racismo viessem a ofuscá-lo.

Poderíamos nos perguntar o que está acontecendo com o futebol que se transformou mais numa empresa com suas sombras de lucro e violência do que em um jogo.

Poderíamos nos perguntar quais privilégios, intrigas e interesses comerciais se escondem por trás dessa sigla secular da Fifa e, de modo geral, dos clubes de futebol.

Podem continuar atuando como se desde a sua fundação o mundo não tivesse mudado dos pés à cabeça. Hoje, em cem anos vivem-se mil de antes. Mas no futebol tudo parece paralisado.

 

Poderíamos perguntar-nos se os ídolos do futebol ainda atuam movidos pela paixão de outrora ou mais bem por esse baile de cifras astronômicas de dólares que se embaralham como se fossem moedas de baixo valor.

 

Ou o que significa esse mercado internacional no qual os jogadores são vendidos e comprados como se se tratasse de gado de raça ou transformados em uma fria marca comercial.

Ou se os clubes não entraram também nessa corrida maldita onde o que menos conta é a essência do que era o futebol, mas o frio gerenciamento que pensa só em seus resultados financeiros.

Poderíamos perguntar-nos por que hoje também entre os aficionados de um esporte visto como a arte de lutar sem morrer, começa a brotar a violência e o sangue entre os fanáticos entrincheirados como numa guerra.

Ou por que em um esporte que tinha como uma de suas bandeiras mais preciosas sua universalidade e a ausência de racismo, onde o que contava não era nem a cor da pele nem os títulos universitários dos futebolistas, senão a arte viva do espetáculo, hoje volta a ser manchado pelos insultos aos jogadores de cor.

Ou poderíamos perguntar-nos onde ficaram os tempos em que os jogadores que fizeram o futebol mundialmente famoso eram pobres, e cuja única riqueza se constituía em aplausos e no calor dos torcedores.

Ou o futebol recupera das chuteiras ao coração de seus jogadores, até os camarotes dos donos dos clubes e dos senhores presunçosos da Fifa, aquilo que o fez entrar um dia no coração de milhões de amantes desse esporte, ou logo o veremos arrastando-se pelo chão, como tantas outras instituições que passaram de abençoadas a execradas pelo povo.

Estou exagerando? Os primeiros que começaram a chamar a atenção para isso são os brasileiros que passaram da sensação de reis da bola, malabaristas do futebol, a uma espécie de desilusão até com a Copa, evento que a maioria dos brasileiros preferiria ver disputada em outro país. E os estádios aparecem cada dia mais vazios e violentos.

Tão desiludidos estão que os aficionados nem discutem com paixão as contratações do técnico (Felipão) como acontecia no passado. Em um levantamento feito entre os leitores do jornal Folha de São Paulo, só 27% consideram o Brasil favorito e 40% acreditam na Alemanha. Cabe maior depressão e desinteresse?

Não é, no entanto, a paixão pelo futebol que está morrendo, nem no Brasil nem no mundo. Essa continua viva e palpitante em milhões de aficionados do planeta. O que está doendo e preocupando é esse cheiro a podre que começa a se sentir, dentro e fora dos estádios, entre os donos materiais do jogo do futebol e que lembra o mundo de intrigas e corrupções da obra mestre de Shakespeare.

Quem sabe o polêmico Mundial do Brasil sirva para devolver ao futebol seu cheiro de pureza, como na época em que era só um jogo e uma paixão e não como hoje um baile de dólares, corrupção e até violência.