Especial: mudanças climáticas ameaçam portos.Conheça um projeto contra inundações na Holanda

0
357
IMPRIMIR
As portas da barreira são enormes pontões flutuantes que podem ser preenchidos com água em caso de tempestades. O peso adicional faz com que elas afundem e se tornem uma enorme barreira/ Arquivo Pessoal

por Diniz Júnior / Especial

A mudança do clima é um dos desafios mais complexos deste século, tendo em vista o seu potencial de ocorrência, a magnitude de uma série de impactos e os enormes prejuízos que ela traz não só para população e a biodiversidade, mas também, setores econômicos.Entre os setores que podem sofrer diretamente com os impactos causados por esse fenômeno está o setor portuário. Isso acontece por conta das particularidades de sua infraestrutura, operação ou acesso.

Os portos são um ponto crítico de interseção do comércio global, por isso, tais impactos negativos poderão implicar em danos e prejuízos consideráveis, tendo em vista que aproximadamente 90% de todo o comércio mundial depende do transporte marítimo para se sustentar.

No Brasil o assunto começa a receber atenção da Agência Nacional de Transportes Aquaviários – ANTAQ, por intermédio das gerências de Desenvolvimento e Estudos e de Meio Ambiente e Sustentabilidade, ambas da Superintendência de Desenvolvimento, Desempenho e Sustentabilidade, e em parceria com a Agência Alemã de Cooperação Internacional – GIZ.

O porto gaúcho do Rio Grande está na lista do Programa de Parcerias de Investimentos e possui a posição mais crítica no ranking de risco climático considerando os portos da Região Sul. Está sob maior risco climático para as ameaças de tempestades (3º lugar geral no cenário atual e para o ano de 2050) e aumento do nível do mar (2º lugar geral). Na reportagem abaixo, um projeto bilionário protege os portos contra inundações.A ANTAQ informou ontem à Portos & Mercados que os dados dessa pesquisa no Brasil deverão ser divulgados no próximo mês.

Um país que aprendeu a conviver com as águas

Os holandeses tem todos os motivos para temerem as bravas águas do Mar do Norte.  A longa relação da Holanda com o mar originou tecnologias que ajudam no combate ao aquecimento global e a desastres ambientais.

A água está no DNA dos holandeses, faz parte da identidade nacional.Ao longo dos séculos, o país travou diversas batalhas contra a água. Moinhos foram usados para controlar seu nível e diques foram construídos para manter os holandeses secos.

Após a tragédia de 1953, quando uma tempestade causou enchentes e mais de 1.800 mortes, os esforços nacionais foram redobrados. Uma mega tempestade atingiu o Mar do Norte na noite de 31 de janeiro de 1953. Essa tempestade, combinada com uma maré excepcionalmente alta (que ocorre regularmente quando a força gravitacional da lua se junta à do sol) resultou em desastre. Os diques não aguentaram e o que era fazenda e cidade voltou a ser mar sem aviso prévio.

Em 2009,a convite do governo holandês conheci várias obras de infraestrutura nos portos, aeroportos e estradas na Holanda, juntamente com um grupo de jornalistas brasileiros. Um das visitas incluía as  Obras do Delta, um grande sistema de defesa contra inundações que protege os es­tuários dos rios Reno, Mosa e Escalda. O grande diferencial é que a Holanda aprendeu a não combater mais a água, mas a conviver com ela. Por todos os lados foram criadas bacias de coleta, garagens, parques e praças que também servem como reservatórios, para quando o mar e cursos d’água avançam e ameaçam inundar a região.

As portas da barreira são enormes pontões flutuantes que podem ser preenchidos com água em caso de tempestades. O peso adicional faz com que elas afundem e se tornem uma enorme barreira. Quando a situação volta ao normal, a água é bombeada para fora dos pontões. Todo esse processo é automático e controlado por computador. A primeira vez na história da Holanda em que todas as cinco maiores barreiras contra tempestades foram fechadas foi em 2018. Na oportunidade gravei esse pequeno vídeo de uma simulação.

Engenheiros e arquitetos desenvolveram esse projeto pioneiro para permitir que os holandeses convivessem com a água, em vez de combatê-la, assim protegendo a terra ao redor do delta Reno-Mosa-Escalda. Uma das obras mais destacadas desse complexo é a Maeslantkering, uma barreira móvel contra tempestades que protege o porto de Roterdã.

Foram investidos 10 anos de estudos para a concepção do projeto e outros seis anos para sua construção, num investimento de 505 milhões de euros. Desde sua conclusão, em 1996, nunca houve necessidade de usá-lo, embora simulações sejam feitas uma vez por ano. Os holandeses não se cansam de lembrar da devastadora inundação de 1953, quando um terço do país foi destruído. Tamanho investimento é plenamente justificável: 50% da Holanda fica a menos de um metro do nível do mar e 20%, abaixo.O desastre de 53 foi tema do filme holandês De Storm, de 2009.

 

São duas estruturas imensas, dois braços de 350 metros de comprimento ao todo, dispostos frontalmente, nas margens do rio Reno. A função é criar uma barreira artificial para conter o avanço das águas do mar do Norte, caso subam a mais de três metros de sua normalidade/ Arquivo Pessoal

Impacto direto nos portos

Com uma possível maior frequência de eventos climáticos extremos, a área dos portos podem registrar um aumento em seus processos de assoreamento e erosão, que, por sua natureza, causam a elevação do nível da água em decorrência do acúmulo de detritos e sedimentos.

Para o setor portuário, esse processo é problemático porque pode levar à interrupção da navegação nas regiões portuárias (por motivos de segurança) e até mesmo à inundação de pátios de terminais e áreas próximas – como zonas urbanas. Além disso, esses impactos, em conjunto, representam o aumento dos custos dos complexos marítimos e afetam ainda a durabilidade e resistência das instalações e das infraestruturas portuárias frente às condições ambientais e climatológicas.

Nesse sentido, os portos de todo o mundo estão em uma busca crescente por identificação e avaliação dos riscos climáticos que evidenciam a necessidade de elaboração de estratégias de adaptação que visam reduzir os prejuízos financeiros e operacionais decorrentes desses impactos.

Grandes complexos portuários, como os de Roterdã, na Holanda, e Nova York-Nova Jersey; Los Angeles-Long-Beac; San Francisco e Houston, nos Estados Unidos, têm estudado, na última década, os impactos que o aumento do nível do mar podem causar tanto em suas áreas portuárias como nas urbanas. E, em alguns casos, já desenvolvem planos de ação para se proteger dos impactos do fenômeno.

Para sua operação, esses complexos são dependentes de áreas abrigadas, condições de acessibilidade e segurança na navegação interior (profundidade e largura do canal), de modo a receber navios e estes possam embarcar e desembarcar suas cargas de modo seguro – fatores diretamente influenciados pela variação de profundidade e pelo clima local (ventos e eventos naturais como tempestades e ressacas). Assim, as mudanças climáticas e suas consequências, como o aumento do nível do mar, acabam tendo impacto direto nos portos.

Segundo pesquisadores e especialistas internacionais, até o final do ano 2100, o aumento do nível do mar deve ser de 0,18 a 0,59 metro, suficiente para afetar a infraestrutura dos portos, especialmente as obras de abrigo, implantadas para garantir as condições de operação.

 

Aquecimento global ameaça cidades costeiras, alertam peritos da ONU

A subida do nível do mar, as inundações e a intensificação das ondas de calor ameaçam as cidades costeiras em todo o mundo, diz relatório provisório do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (IPCC, na sigla em inglês).”O nível do mar continua a subir, as inundações e as ondas de calor são cada vez mais frequentes e intensas e o aquecimento aumenta a acidez do oceano”, observam os cientistas no relatório de 4 mil páginas sobre os impactos das mudanças climáticas.

De acordo com os peritos climáticos, é preciso “fazer escolhas difíceis”. Sob o efeito combinado da expansão dos oceanos e do degelo causado pelo aquecimento, a subida do nível do mar também ameaça contaminar os solos agrícolas com água salgada e engolir infraestruturas estratégicas, como portos ou aeroportos.

Um “perigo para as sociedades e para a economia mundial em geral”, alerta o IPCC, lembrando que cerca de 10% da população mundial e dos trabalhadores estão a menos de dez metros acima do nível do mar.

“Para algumas megalópoles, deltas, pequenas ilhas e comunidades árticas, as consequências podem ser sentidas muito rapidamente, durante a vida da maioria das populações atuais”.

“O destino de muitas cidades costeiras é sombrio sem uma queda drástica nas emissões de CO2”, dizem os pesquisadores, acrescentando que “qualquer que seja a taxa dessas emissões, o aumento do nível dos oceanos acelera e continuará a ocorrer durante milénios”.

“A maioria das cidades costeiras pode morrer. Muitas delas serão dizimadas por inundações de longo prazo. Em 2050, teremos uma imagem mais clara”, disse Ben Strauss, da organização Climate Central.

Mas, apesar dessas previsões sombrias, as cidades costeiras continuam a crescer, multiplicando as vítimas em potencial, especialmente na Ásia e na África.

Segundo o documento, um aquecimento global acima do limiar de 1,5 ºC (grau centígrado), fixado pelo acordo de Paris, teria “impactos irreversíveis para os sistemas humanos e ecológicos”. Os peritos afirmam que a sobrevivência da humanidade pode estar ameaçada.

Com as temperaturas médias subindo 1,1 °C desde meados do século 19, os efeitos no planeta já são graves e podem se tornar cada vez mais violentos, ainda que as emissões de dióxido de carbono (CO2) venham a ser reduzidas.

Falta de água, fome, incêndios e êxodo em massa são alguns dos perigos destacados pelos peritos da ONU.O relatório de avaliação global dos impactos do aquecimento, criado para apoiar decisões políticas, é muito mais alarmante que o antecessor, divulgado em 2018.

O documento deverá ser publicado em fevereiro de 2022, após a aprovação pelos 195 Estados-membros da ONU e depois da conferência climática COP26, marcada para novembro em Glasgow, na Escócia.