Entrevista: Recuperação econômica pede celeridade nas reformas e na vacinação

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A segunda onda da pandemia já está cobrando o seu preço em termos de atividade econômica, o que fragiliza, sobretudo, o mercado de trabalho. O raciocínio é de Bráulio Borges, economista-sênior da área de Macroeconomia da LCA e pesquisador-associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), think tank ligado à Fundação Getulio Vargas. Em palestra exclusiva para a CNT, o especialista apresentou dados que detalham oportunidades e riscos no horizonte de 2021. 

Segundo as projeções, a recuperação econômica entre os países será desigual, com ampla vantagem para aqueles que forem mais rápidos e eficientes na vacinação. China e Israel, por exemplo, estão bastante avançados e, em breve, devem conquistar a imunidade de suas populações. O pós-crise ainda é bastante nebuloso, explica Borges, mas não está descartado um novo superciclo de commodities no mundo, puxado desta vez pela Índia, país ávido por soja e minério. Esse movimento tende a ser benigno ao Brasil. 

No plano doméstico, o desemprego pede atenção. “Durante a crise, as restrições à mobilidade impediram que as pessoas procurassem emprego e, hoje, o mercado de trabalho segue bastante fragilizado”, pontuou. A confiança em retornar às ruas depende em larga medida do sucesso da campanha de vacinação. A LCA trabalha com um cenário de crescimento do PIB na ordem de 3,5% em 2021. Porém, esse número inspira cautela, alertou o economista. “Observe que a base de comparação é fraca. O ganho líquido seria de 0,5%”, acrescentou.

Uma boa notícia é a criação de uma base aliada ampla no Congresso, viabilizada pela vitória de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, respectivamente, presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. “Agora, o Executivo precisa dar uma ‘limpada’ na pauta e eleger uma agenda prioritária”, ressaltou, citando a definição sobre o Auxílio Emergencial, a possibilidade de uma reforma ministerial, a autonomia do Banco Central e a aprovação de uma possível Lei de Responsabilidade Social. 

Após a conferência, o consultor econômico Bráulio Borges deu uma entrevista à Agência CNT Transporte Atual. Confira, a seguir, os principais pontos da conversa:

Qual é a importância da vacinação em massa para a retomada da economia?

No curto prazo, a vacinação em massa é a política mais importante. Que ela avance e chegue a, pelo menos, 70% da população da forma mais rápida possível. Isso é o que vai permitir que a gente abaixe as restrições à mobilidade das pessoas e, principalmente, ao funcionamento de estabelecimentos, e com isso a gente comece a normalizar as atividades. Em particular, alguns exercícios que a gente fez na LCA mostram a potência dessa medida. Em vez dos 3,5% que se projeta hoje (que é, basicamente, o carregamento estatístico do ano passado, porque a base de comparação é muito fraca), nosso PIB poderia crescer, por exemplo, 5,5% neste ano se conseguíssemos imunizar 70% da população até agosto ou setembro deste ano, e não somente no fim do ano, o que parece ser o cenário mais provável. 

Agora que o governo dispõe de uma base aliada ampla nas Casas Legislativas, que agenda de reformas deveria ser adotada e com que prioridade?

A construção da base é algo importante, porque, nos dois primeiros anos, o governo acabou se negando a fazer um gerenciamento de coalizão. Reformas acabaram passando, mas por iniciativa do Congresso. Em alguns casos, até a despeito do Executivo. Então, agora, com uma base minimamente construída, ele tem realmente uma chance de coordenar o processo de agenda das reformas. A questão é que o governo tem uma janela curta para isso, então tem de ser muito eficiente em coordenar a coalização. Basicamente, nós temos este ano para viabilizar a aprovação de inúmeras reformas, uma vez que 2022 é ano eleitoral, mais difícil de aprovar medidas que possam ser impopulares. Dado que a janela é curta, o governo tem, realmente, de priorizar. A lista de 35 medidas que o governo entregou ao Congresso passa longe de ser uma priorização para quem tem um ano para tomar medidas. Nesse aspecto, o próprio Congresso terá de “devolver a bola” para o Executivo e, juntos, vão ter de pautar uma lista mínima de medidas. Algumas delas, devem ser pautadas de imediato: o Auxílio Emergencial está aí para ser aprovado. Também o orçamento de 2021, sob o risco de shutdown. É preciso pautar algumas discussões para o primeiro semestre e outras, para o segundo semestre. Em 2022, é pouco provável haver qualquer discussão importante dessa agenda. 

Em sua palestra, o senhor apontou que este será um ano de baixíssimos investimentos público e privado. Por quê?

No caso do setor público, isso é muito por conta da restrição do teto de gastos. Neste ano, vai-se reduzir a despesa discricionária para que o teto seja cumprido. A despesa discricionária do Governo Federal terá de cair ao menor nível já registrado em proporção do PIB. A gente sabe que a principal despesa discricionária é o investimento público. E o investimento público, no Brasil, desde 2015, não está nem cobrindo a depreciação das estruturas existentes. Então, a gente não está conseguindo investir sequer para tapar buracos, para manutenção. Neste ano, o aperto vai ser ainda maior para cumprir o teto de gastos. No caso do investimento privado, tem o próprio efeito multiplicador vindo do setor público. O fato de o setor público investir menos já é um sinal ruim para o investimento do setor privado. Outra coisa é que o setor privado está com uma ociosidade do seu parque produtivo muito elevada. Isso vem desde antes da crise da pandemia, mas foi exacerbado em vários segmentos. Mesmo antes do choque da pandemia, a gente vinha em uma recuperação atipicamente lenta da nossa crise anterior, com setores investindo muito pouco, porque não valia a pena, dado o excesso de ociosidade. As reformas darão um horizonte um pouco melhor. Porém, um horizonte mais favorável daqui a cinco ou dez anos não substitui políticas de gestão da demanda agregada no curto prazo, para lidar com essa questão cíclica, de fraqueza excessiva, que a nossa economia tem enfrentado desde 2016 e que a crise do ano passado só agravou.