Entrevista: estaleiros brasileiros precisam manter custos competitivos para garantir contratações

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Sérgio Bacci, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (ABENAV),

por Luigi Mazza / Petronotícias

Diante dos impactos da crise internacional, o setor brasileiro de óleo e gás sofre hoje uma crescente evasão de investimentos e o cenário é de reestruturação para grande parte das empresas. Ao passo que antes vivia uma ampliação de aportes, impulsionada em parte pelas regras de conteúdo local, a indústria naval luta agora para ampliar sua competitividade frente a concorrentes estrangeiros e evitar que novos projetos sejam levados para fora do país, o que já vem sendo concretizado no planejamento da Petrobrás para os próximos anos. De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (ABENAV), Sergio Bacci, é necessária hoje a estabilização de um ambiente de negócios que assegure a continuidade de encomendas para o setor, o que já vem sendo instituído por meio de incentivos do governo em países como Coréia do Sul, China e Japão, detentores das maiores estruturas navais do mundo.

O momento é de adequar os custos de produção à nova realidade do mercado e obter novos contornos para enfrentar a crise internacional, afirma Bacci, que defende o debate entre diversas áreas da cadeia para ampliar o dinamismo da indústria brasileira, como foi feito na elaboração do Pedefor – Programa de Estímulo à Competitividade da Cadeia Produtiva, ao Desenvolvimento e ao Aprimoramento de Fornecedores do Setor de Petróleo e Gás Natural. “Não existem medidas que possam influir na decisão de contratação de fornecedores por empresas petroleiras locais ou internacionais. Existem condições competitivas que orientam essas decisões”, argumenta o executivo, que cita os estaleiros Brasa e Brasfels como exemplos de empresas que se mantiveram atrativas em meio à crise.

Como a Abenav avalia os possíveis efeitos do Pedefor sobre a competitividade do setor de óleo e gás? 

Tanto a Abenav quanto o Sinaval defendem as regras do conteúdo local por considerar que proporcionaram oportunidades concretas a empresas locais. As mudanças sinalizadas no Pedefor foram resultado de extensos debates e reuniões envolvendo os diversos interessados. A queda do preço do petróleo provocou uma mudança nos patamares de custos que precisam ser incluídos como parâmetros em todo ambiente do setor de óleo e gás. É preciso ressaltar que, apesar da crise atual, algumas realidades permanecem. São elas as extensas reservas de petróleo no Brasil reconhecidas internacionalmente; o interesse de empresas internacionais para explorar petróleo em águas territoriais brasileiras e a excelência técnica reconhecida na Petrobras para prosseguir com uma posição relevante nas atividades de exploração em águas profundas. É positivo que exista um ambiente aberto ao debate para adotar uma posição dinâmica que permita o desenvolvimento da indústria de óleo e gás no Brasil, incluindo a formação local de uma rede de fornecedores. 

Nesse sentido, como a Abenav avalia o potencial das mudanças nas regras de conteúdo local? 

A Abenav acredita que o conteúdo local trouxe muitos benefícios que precisam ser reconhecidos. Entretanto, o arcabouço regulatório existe num ambiente de mercado que deve refletir essa dinâmica para que as oportunidades não sejam perdidas. 

Que medidas podem ser tomadas hoje para evitar que novas obras sejam levadas para estaleiros no exterior? 

Não existem medidas que possam influir na decisão de contratação de fornecedores por empresas petroleiras locais ou internacionais. Existem condições competitivas que orientam essas decisões. Existem regras como a do conteúdo local que buscam incentivar a contratação de empresas locais, com a finalidade de gerar empregos e ampliar a capacidade de competição dessas empresas. A observação do mercado demonstra que existe contratação local, principalmente na construção de módulo e sua integração ao casco que é realizado de forma competitiva no Brasil. Podemos citar exemplos dos Estaleiros Brasa (Niterói – RJ) e Brasfels (Angra dos Reis – RJ), que vêm realizando essas obras para diversos clientes internacionais. Várias contratações em empresas locais demonstram que existe capacidade local de fornecimento competitivo. 

Qual é hoje a principal dificuldade para os estaleiros se manterem competitivos em relação aos estrangeiros? 

Atualmente a crise atinge também os estaleiros internacionais. Em qualquer segmento da indústria o que assegura ganhos de competitividade é o ambiente de negócios que proporciona continuidade de encomendas. Os líderes da construção naval mundial – que são a Coreia do Sul, a China e o Japão – têm em comum um estruturado e consistente apoio do Estado na formação de recursos humanos, no desenvolvimento de tecnologias e no financiamento às empresas.

Há hoje uma sinalização do mercado de que a situação pode melhorar antes da retomada do barril? 

Nem a Abenav nem o Sinaval realizam projeções sobre o futuro do mercado de contratações. Procuramos realizar um acompanhamento do mercado e ouvir nossos associados para receber indicações sobre a situação real nos fornecimentos ao segmento de mercado representado pelo setor de óleo e gás. O acompanhamento das informações sobre o mercado aponta que o preço do petróleo atingiu seu ponto mais baixo, e em diversos relatórios internacionais é apontado que a formação de estoques de petróleo não está mais crescendo. Essas tendências influenciam o aumento do preço do petróleo. Para o caso do Brasil, o preço do petróleo tem impacto, mas o fator predominante é a existência de extensas reservas de petróleo já dimensionadas e que mantém investimentos de consórcios como os de Libra e do Parque das Conchas.

Caso seja aprovada, a recuperação judicial da Sete Brasil não pode destravar as obras para as sondas da Petrobrás? 

A Abenav acompanha as informações em relação a Sete Brasil. Não cabe a nós opinar sobre este assunto, e sim à Sete Brasil.

Qual solução a Abenav avalia como mais profícua no caso da Sete Brasil?

A Abenav avalia que existe perda considerável dos estaleiros que investiram para construção das sondas e que isso precisa ser considerado.