David King: “O tempo para duvidar da ciência já passou”

0
540
IMPRIMIR
por Bruno Calixto e Alexandre Mansur / Blog do Planeta

LUZES Sir David King num hotel em São Paulo. Ele diz que é preciso separar a crise climática da falta d’água no Estado (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)

Sir David King é uma espécie de embaixador científico britânico. Diretor de pesquisas químicas na Universidade de Cambridge, já foi conselheiro-chefe de vários governos. Agora, sua missão é correr o mundo em nome do Ministério de Relações Exteriores britânico, angariando apoio para um acordo que reduza as emissões de poluentes responsáveis pelas mudanças climáticas. King visitou o Brasil na primeira semana do mês. Falou com o governo, ONGs e empresários sobre as recomendações dos últimos relatórios do painel científico do clima da ONU, o IPCC. Para evitar catástrofes climáticas que inundariam o Reino Unido, King defende até a energia nuclear e o gás de xisto.

 

ÉPOCA – São Paulo enfrenta a pior crise de água já registrada. Segundo os cientistas, isso não é um efeito do aquecimento global. A previsão é que as mudanças climáticas gerem verões mais chuvosos. Como lidar com isso?


David King –
Precisamos ter muito cuidado. Nunca devemos criar um caso quando ele não existe. Porque, senão, você fica vulnerável. É preciso dizer claramente que a seca não tem relação com as mudanças climáticas. O impacto é ruim por causa dos que tentam desacreditar a ciência do clima. Eles podem se aproveitar disso.

ÉPOCA – O IPCC acaba de publicar um novo relatório sobre mudanças climáticas. A mensagem é mais forte, mas a resposta da sociedade não. Por quê?


King –
Parte do problema é da própria mídia. Ela gosta de coisas novas, e mais um relatório não a impressiona. A notícia é tão séria que pode ser vista como a maior ameaça que a civilização já enfrentou. Mas temos uma crise econômica em muitos países, e sinto que a mensagem chegou no momento errado. Os cientistas fizeram um trabalho hercúleo. Comunicar esse desafio provavelmente vai além deles. No Reino Unido, desenvolvemos um centro independente do governo e da mídia, que apresenta material sobre todos os assuntos referentes à ciência. É comum que os cientistas trabalhem num nível difícil de entender para o público. É preciso comunicadores para fazer isso.

ÉPOCA – Na última edição do relatório do IPCC, de 2007, muitos estavam impressionados com o Furacão Katrina (de 2005). Grandes eventos climáticos podem aumentar a sensibilidade do público?


King –
Não há dúvida. Na Rússia houve uma mudança completa da opinião pública sobre mudanças climáticas. O presidente Vladimir Putin costumava dizer que talvez as mudanças climáticas fossem boas para o país. Mas eles tiveram ondas de calor muito severas. Houve mortes e danos materiais com derretimento do permafrost. Agora, perceberam que as mudanças climáticas desafiarão o modelo de vida atual. O presidente Putin anunciou que a Rússia reduzirá suas emissões em 27% até 2020, e as pesquisas de opinião mostram que os russos estão preocupados com as mudanças climáticas.

Olhe para o impacto da tempestade Sandy (de 2012), em Nova York. Nunca antes um furacão chegou tão ao norte quanto Nova York, com tanta ferocidade. Tome o tufão Hayan (de 2013), nas Filipinas. Cada vez que há um evento extremo, soa um alarme. Mas há outro aspecto. As pessoas estão quase desistindo de esperar que a comunidade internacional responda à altura. Na reunião de Copenhague (parte da negociação internacional, em 2009), havia alto grau de expectativa de que seria aprovado um novo acordo internacional para reduzir as emissões. Isso não aconteceu. O público só voltará ao assunto quando vir que a comunidade política começa a tomar ações firmes. Em Lima, neste ano, será muito importante. A reunião em Paris, em 2015, é crítica. Não podemos ter um novo Copenhague.

ÉPOCA – O senhor foi nomeado representante especial de mudanças climáticas pelo Ministério de Relações Exteriores. Por que o Reino Unido está tão empenhado nisso?


King –
O risco das mudanças climáticas para as ilhas britânicas é muito severo. Somos um Estado insular. Fizemos um relatório em 2004 com cientistas, economistas e pesquisadores. Esse relatório mostra que, num cenário de manutenção das emissões atuais, não seremos capazes de defender nossa costa no final do século. Cidades como Londres estão ameaçadas por enchentes, tempestades e pela elevação do mar. No último inverno no Reino Unido, sofremos as piores enchentes de nossa história. Felizmente, como isso já fora relatado em 2004, preparamos nossas defesas. Mas nos próximos anos, se o clima continuar a mudar no ritmo atual, não poderemos evitar o pior. Por isso, precisamos nos mobilizar para que, de alguma forma, a gente consiga um acordo global. É por isso que o governo britânico foi o primeiro a se comprometer com um tratado para 2015. Reduziremos 80% das emissões até 2015. Transformamos isso em lei. É claro que eu reconheço que todos os países estão ameaçados, de uma forma ou de outra. É por isso que não podemos desistir.