Comércio de sucatas de navios revela descaso na Ásia

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Revista Conexão Marítima, denunciou o caso em reportagem de capa em outubro do ano passado

por Mauro Pasini e Diniz Júnior

Reportagem publicada nesta semana no site  Seatrade-global e assinada por Shirish Nadkarni denuncia o abandono e a falta de segurança no comércio de sucatas de navios  em estaleiros na Índia. A reportagem relata “que é um grande revés para a indústria de desmantelamento na Índia, um estudo realizado pelo Instituto Tata de Mumbai de Ciências Sociais (TISS) em  Alan, que mostrou que as condições de trabalho não melhorou ao longo dos anos desde a sua criação há 31 anos.

O estudo, encomendado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), baseia-se em trabalho de campo intensivo no maior estaleiro de desmantelamento do mundo localizado em  Alang e Sosiya. A pesquisa foi feita  a partir de 21 abril do ano passado a 30 de Maio de 2014 O relatório foi apresentado em junho, e está previsto para ser publicado dentro de alguns dias.

Em outubro de 2013 a Revista Conexão Marítima denunciava em reportagem de capa em sua edição 103, a preocupação da Organização Marítima Internacional (IMO) sobre a forma descontrolada de reciclagem de navios feita na Ásia. A reportagem, assinada por Mauro Pasini,  abordou o mercado de reciclagem de embarcações, principalmente realizada nos países asiáticos. Longe dos holofotes, o serviço é feito de forma primitiva e com pouco controle ambiental. Gigantescos navios que fizeram fama nos portos  mundiais são retalhados por uma legião de trabalhadores para, depois, ser vendido como sucata.

Calçando chinelos, trabalhadores retalham sucata de navios na praia de Alang, na Índia

Os números – mesmo estimados – impressionam. Em dez anos, os países asiáticos receberam cinco mil navios para serem submetidos ao processo. Tanto que a atividade agora está na mira da Organização Marítima Internacional (IMO). No papel, a regra é rígida ao exigir mais proteção aos trabalhadores e o destino correto dos resíduos. Na prática, cria um impasse para os armadores, que pedem mais tempo para adequação e mais políticas de incentivo.

Os ativistas ambientais têm consistentemente denunciado a falta de equipamentos de segurança adequados, como também a forte presença de substâncias nocivas, como o amianto e PCBs (bifenilos policlorados) em navios de demolição que põem em perigo a vida e saúde dos trabalhadores, e torna-os  suscetíveis ao câncer e doenças respiratórias. A reportagem publicada nesta semana pelo site Seatrade-global , revela ainda que um integrante da equipe TISS, que realizou os estudos em Alang, disse que houve 470 mortes nos estaleiros de desmantelamento de navios em Alang, no período 1983-2013. “Este é o número oficial, aceita pela associação dos Shipbreakers, mas o número real pode ser muito maior”, disse ele. “A formação dos novos trabalhadores é insuficiente; é apenas de dois a três dias.

“Os trabalhadores são em sua maioria migrantes de regiões pobres do Bihar, Uttar Pradesh, Jharkhand e Odisha. Eles são ignorantes sobre as regras e regulamentos; eles não têm idéia das leis trabalhistas. Tampouco se conhece da indenização devida a eles”,disse o integrante  da equipe TISS, alegando que a ajuda médica apropriada nunca estava disponível, e que os médicos que visitaram as clínicas não eram regulares. “Eles não têm um especialista em ortopedia ou a pele”, disse ele. “A única instalação médica disponível é um hospital de nove camas administrado pela Cruz Vermelha e uma pequena clínica dirigida por um médico particular. Para emergências, os feridos têm de ser tomadas para Bhavnagar, que é quase 50 km de distância. “

 

Em 30 anos ocorreram 470 mortes nos estaleiros de desmantelamento de navios em Alang ( 1983-2013)

Negócio bilionário a base do trabalho escravo

Países como Índia, Bangladesh, Paquistão e Turquia lideram o mercado de reciclagem de navios. Só em Bangladesh, 40 mil empregos e 70 milhões de libras anuais em impostos são gerados com atividade. O Vilarejo de Alang, a 300 km de Bombaim, é responsável por quase metade dos desmanches dos navios mercantes e de guerra no mundo. O desmanche de navios em Alang gera meio bilhão de dólares de lucro bruto, mas agrava o já preocupante problema social. O sul da Ásia torna-se lucrativo aos empresários pela mão de obra barata e fragilizada pelas leis trabalhistas. A rotina de retalhar as embarcações é feita por trabalhadores maltrapilhos e, em muitos casos, usando mão de obra infantil. Por dia cada trabalhador ganha pouco mais de R$ 3,00. Além disso, falta controle sobre o destino final de resíduos perigosos originados do processo, como óleo, mercúrio e amianto.