ARTIGO: O APARTHEID TUPINIQUIM

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                Mapa das Capitanias Hereditárias / Foto EBC

 

No Século XVIII os franceses encantaram e influenciaram o mundo com seus ideais de Liberté, Egalité et Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). Esse foi o lema da Revolução Francesa. Um grito em prol da democracia e da igualdade de oportunidades.

Já, em agosto de 1963, diante de uma multidão de 250 mil pessoas, em Washington/DC, o Reverendo e ativista dos Direitos Civis, Martin Luther King, encantou o mundo ao pronunciar o seu famoso discurso I have a dream’, onde relatava das suas expectativas e sonhos por um País mais justo e igualitário.

Ainda, nos idos de 1960, uma liderança tênue, mas firme, surgia na África do Sul para lutar contra o terrível Apartheid, feroz regime segregacionista vigente de 1948 até a década de 1990, naquele País. Era Nelson Mandela. Sua luta era tal qual aquela de Luther King.

Em nosso País, desde os tempos do Brasil-Colônia, vivemos, também, um verdadeiro ‘apartheid’. A coisa aqui, entretanto, é mais sutil e, por que não ousar dizer, sofisticada. Começou com as famosas Capitanias Hereditárias onde os amigos do Rei eram aquinhoados com terras e benesses.

Isso perpassou o tempo e encontra-se incrustado no tecido político, social e econômico do País. Tem nome: Patrimonialismo.

A coisa é tão entranhada que, no frigir dos ovos, todos recebem o seu quinhão. Aos grandes, todavia, a melhor parte. Aos pequenos, ‘políticas públicas assistencialistas’ com amiúdes, ínfimas e passageiras benesses.

E, com isso, se consegue estabelecer uma, digamos, determinada ‘pax social’.

Enquanto isso, a boiada passa. Generosas concessões e vantagens são, cada vez mais, mutuamente distinguidas aos poderosos do plantão e suas corporações. Nos 3 níveis e esferas de Poder. Ou à determinados e poderosos segmentos da iniciativa privada. Uma verdadeira ação entre amigos.

Alguns entendem que isso é uma forma inteligente de fazer política e assacar a governabilidade. Seria isso, então, o “Presidencialismo de Coalizão”?

Para mim, está mais para ‘Presidencialismo de Colisão’!!! Sim, por nos levar a infringir muitos dos condicionantes republicanos. E à decência.

Tivemos a Colônia, o Império, a República Velha, o Militarismo, a Nova República e chegamos ao atual Governo. Os métodos permanecem os mesmos. Mas, como disse, contudo, mais sofisticados.

Como o Luther King eu, também, tenho um sonho. Todavia e, infelizmente, não será para a minha geração assisti-lo. Uma triste constatação. E, o pior: uma grande frustração.

Ivon Carrico, Engenheiro Civil, Servidor Público Federal, com passagem por 10 órgãos federais. Dentre eles a Anvisa e a Presidência da República