Armadores brasileiros contribuem para o desmanche criminoso na Ásia

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Desmanche de navios que destrói praias e vidas humanas na Índia, no Paquistão e em Bangladesh. Só em 2016, 668 embarcações foram desmanteladas em praias / Shipbreaking Platform

Mais uma vez, o SINDMAR chama a atenção para o problema do despejo de navios em fim de vida útil no meio ambiente sem o tratamento adequado. Embarcações construídas no Brasil em condições facilitadas pelo Estado e operadas por diversos anos por empresas brasileiras, tristemente, continuam contribuindo para a contaminação das praias, os acidentes e as mortes ocorridos em países como Bangladesh, Índia e Paquistão.

Só em 2016, 668 embarcações foram desmanteladas em praias. “É escandaloso que o fardo de lidar com o boom da construção de navios sedenta de lucros seja transferido para as comunidades e trabalhadores do Sul asiático: primeiro, a indústria naval cria excesso de demanda no mercado, para depois falhar ao encontrar soluções responsáveis para seus navios obsoletos”, afirma Patrizia Heidegger, Diretora Executiva da Plataforma.

No Sul da Ásia, além de os estaleiros receberem embarcações para desmonte contendo resíduos de produtos tóxicos, eles não oferecem aos trabalhadores um ambiente seguro, desrespeitando a Convenção de Hong Kong para a Reciclagem Segura e Ambientalmente Adequada de Navios.Nestes locais, as pessoas costumam trabalhar sem equipamentos de proteção ou roupas adequadas.

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CONTTMAF exige informações sobre a destinação final dos navios da Transpetro

As carcaças dos navios são retalhadas de qualquer maneira. Famílias que moram no entorno vivem em condições precárias. E a Petrobras simplesmente fecha os olhos para o que acontece na região. A falta de sensibilidade da empresa não pode perdurar. Os países da costa asiática não respeitam a legislação e nem as pessoas.Como a Unificar mostrou anteriormente, nas praias de Bangladesh e Paquistão 79 pessoas ficaram feridas e 55 morreram no ano passado. Entre 2013 e 2015, foram 89 feridos e 53 mortos na costa de Bangladesh. No mesmo local, em julho de 2016, um trabalhador de 35 anos morreu esmagado por uma placa de metal durante o desmonte do navio Ore Timbopeba, da Vale.

Estes números negativos não podem se repetir no Brasil. A atividade de desmonte de navios e descomissionamento de plataformas pode até ser uma alternativa à crise no setor naval e no Offshore, conforme defendido no workshop patrocinado pela GMS – uma das maiores empresas do mundo especializadas em venda de embarcações para o sul da Ásia e para estaleiros dos piores campos de desmantelamento do mundo, segundo a Shipbreaking – mas há que se ter cautela. A indústria pode gerar empregos, já que os estaleiros brasileiros se encontram ociosos com a baixa na construção de embarcações, mas as empresas brasileiras precisam, efetivamente, se adequar.

Enquanto essa realidade não se concretiza no Brasil, há alternativas à destinação responsável dos navios. “Já está na hora de empresas como Petrobras, Vale e Odebrecht procurarem soluções diferentes para reciclagem da parte da sua frota que está em fim de vida. Pode-se encontrar opções seguras e ecológicas na própria América, pois já existem empresas especializadas nesses serviços em países como México, Porto Rico e Estados Unidos”, disse o Secretário de Comunicação e Legislação da ONG, Nicola Mulinaris.

Conseguir alterar a NR 34 – norma que regula a indústria da construção e reparação naval – incluindo a possibilidade de praticar o desmantelamento de
navios e plataformas não basta. Adotar boas práticas de reciclagem será um grande desafio. Não seguir o mau exemplo da Petrobras e de outras tantas empresas que enviam as suas embarcações para as praias da Ásia, evitando que os mesmos problemas da região ocorram aqui no Brasil, será o dever de casa.

“Já está na hora de
empresas como Petrobras,
Vale e Odebrecht
procurarem soluções
diferentes para reciclagem
da parte da sua frota que
está em fim de vida.

Pode-se encontrar opções seguras e ecológicas na própria
América, pois já existem
empresas especializadas
nesses serviços em países
como México, Porto Rico
e Estados Unidos”

Nicola Mulinaris
Secretário de Comunicação e Legislação

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