A ajuda que vem do alto: os balões meteorológicos na Antártica

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     REGIANE MOURA / Dra. em Meteorologia, auxiliar de pesquisa do INCT-CRIOSFERA.

por DINIZ JÚNIOR / EXPEDIÇÃO BRAVO ZULU

O lançamento de balões no continente antártico exige muita paciência e habilidade. Os pesquisadores preparam as radiossondas que são presas aos balões meteorológicos, com isto é possível obter o perfil vertical de temperatura do ar, velocidade e direção de vento, umidade do ar, pressão atmosférica e altitude, atingindo em média 25 km de altitude.

De acordo com as condições de tempo meteorológico, faz-se necessário reuniões entre os chefes científicos embarcados, o chefe de operações do navio e comandante de operações da SECIRM para definir a localização e procedimento das coletas, atendendo diferentes demandas de cada projeto, pois algumas pesquisas dependem do navio parado em uma determinada localidade e outras podem ser realizadas com o navio em movimento.

Na Operação Antártica 38, o projeto Centro de Estudos de Interação Oceano-Atmosfera-Criosfera (CEOAC-INPE/INCT-CRIOSFERA) lançou 20 radiossondas, sendo 11 na região da Confluência Brasil-Malvinas e 9 na Baía do Almirantado, costa Sul da Ilha Rei George, na Antártica.

Entrevista REGIANE MOURA / Dra. em Meteorologia, auxiliar de pesquisa do INCT-CRIOSFERA.

Quais são as dificuldades encontradas na Antártida para a realização das pesquisas?

As pesquisas na Antártida só são possíveis com o apoio da Marinha. Todos os anos a operação começa em outubro e vai até abril envolvendo vários projetos de pesquisa e só conseguimos sucesso com este apoio da Marinha. Temos enormes dificuldades com as condições do tempo, que é um fator importante a se considerar e tudo isso é analisado e discutido nas reuniões entre pesquisadores e militares responsáveis pelas operações, quando se decide a melhor forma possível de alcançar os objetivos de cada projeto.

Para que isso ocorra é necessária uma interação entre a Marinha e os pesquisadores?

Isso é fundamental. Trabalhamos juntos desde o planejamento das operações em terra até dentro do navio, temos conversas diárias para definir como será a logística, tempo de duração. Isso é importante. Os militares fazem de tudo para operacionalizar o nosso trabalho. O que mais dificulta o trabalho dos pesquisadores na Antártida são as condições meteorológicas. Muitas vezes não podemos ir para a parte externa do navio para lançar um equipamento. A Marinha prioriza a segurança de todos a bordo.

O que mais dificulta o trabalho dos pesquisadores na Antártida são as condições METEOROLÓGICAS

Quais os projetos que você está participando?

Faço parte do projeto sobre fluxos turbulentos do Centro de Estudos de interação Oceano-Atmosfera-Criosfera (CEOAC), que é um subprojeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT-CRIOSFERA), e coordenado e executado pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE). O projeto tem como objetivo estudar os processos físicos de interação oceano-atmosfera-criosfera e conexões entre o continente antártico e a América do Sul.

Observações no sistema acoplado oceano-atmosfera na Confluência Brasil-Malvinas tem sido realizadas pelo INPE com o apoio do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e Centro de Hidrografia da Marinha desde 2004, a partir da Operação Antártica XXIII (OP23), até os dias atuais. Então, este grupo já atua há 15 anos na Confluência Brasil-Malvinas e Oceano Austral com o objetivo de não só monitorar, mas também é o único período do ano que temos a oportunidade de coletar os dados e fazer com que isso melhore os modelos de previsão, tanto de tempo, quanto climático, para gerar produtos para a sociedade e não só para planejamento de atividades, mas também para redução de danos. Trata-se de uma região que interfere diretamente no clima da América do Sul.

Você comentava antes dessa entrevista se ganhasse na Mega da Virada compraria um navio oceanográfico para realizar pesquisas. Como é essa história?

Sou uma apaixonada por pesquisas e trabalho de campo. As dificuldades de coleta, equipamento, monitoramento e manter tudo isso, principalmente na questão dos equipamentos, não é nada fácil. Quando se fala em educação e ciência muitos falam em ‘gastos’ e precisamos mudar essa palavra, principalmente nas manchetes de jornais, e começar a utilizar mais a palavra ‘investimento’. Precisamos mudar esse cenário investindo cada vez mais. A ciência pode melhorar a vida das pessoas, todo o desenvolvimento tecnológico deveria ter esta finalidade, bem como reduzir os impactos provocados, por exemplo, por chuvas intensas como deslizamentos de terra e enchentes.

Então, gostaria muito de ter o meu próprio financiamento e não depender tanto das Agências de Fomento que são importantes (já que a carreira de pesquisador não é reconhecida no Brasil), mas se ganhasse na Mega da Virada eu ajudaria muito as pesquisas no Brasil nesse enorme desafio em nome da Ciência e do conhecimento.

A cada lançamento do balão meteorológico, vocês todos comemoravam por essa conquista.

Sempre. A gente planeja como vamos lançar e como vamos coletar esses dados. Tem que dar tudo certo, porque é muito investimento e perder um material em campo é muito ruim e você ver quer a operação foi bem sucedida é muito comemorado. É prazeroso.

A ciência pode melhorar a vida das pessoas, todo o desenvolvimento tecnológico deveria ter esta finalidade

A cada ano se nota um aumento na participação das mulheres realizando pesquisas em todos os campos, principalmente na Antártida. O que isso representa?

Isso mostra que as mulheres podem ocupar todos os espaços na sociedade e há vários projetos que discutem como aumentar a presença feminina no campo da pesquisa científica. O grupo do CEOAC-fase 1 é composto somente por mulheres e, tanto na fase 1 quanto na 2 (60 dias), tem uma mulher na coordenação científica embarcada. Temos projetos direcionados exclusivamente para pesquisadoras e o programa do CNPq lançado em 2005, Programa Mulher e Ciência, que promove a participação das mulheres no campo das ciências e carreiras acadêmicas.

Neste embarque, em particular, fiquei muito feliz quando vi militares mulheres embarcadas. Dos embarques que participei em outros navios, este tem mulheres em sua tripulação e tratando-se do meio militar, isto é um avanço enorme, principalmente agora que mulheres podem ingressar na escola naval, antes só para homens. Temos que continuar discutindo esta ampliação pois a mulher pode ocupar cargos em todas as áreas do conhecimento, porém ainda há muitas desigualdades. Seguimos lutando.

Fotos: Centro de Estudos de Interação Oceano-Atmosfera-Criosfera (CEOAC-INPE/INCT-CRIOSFERA)